segunda-feira, 9 de abril de 2007

MOISÉS


Foi semana passada, terça feira, eu acho. Já estava quase chegando no asfalto, finalizando minha habitual caminhada, quando um Fiat Palio emparelhou ao meu lado, dentro dele duas moças, visivelmente aflitas, gesticulavam para que eu parasse. Retirei dos ouvidos os fones do MP3 e me reclinei para ouvi-las.
-Moço! Você veio dessa estrada... Não viu nenhum cachorro perdido?
Passei mentalmente o filminho daquela manhã e me surpreendi por não lembrar de ter visto cachorro algum. Topei com vacas, cavalos, leitões desgarrados, seriema, sagüis, esquilos, um lagartão tomando sol, mas nenhum cachorro. Disse a elas que sentia muito, mas não podia ajuda-las.
Desconsolada, a que estava ao volante, me entregou um Post-It cor-de-rosa com os nomes de Tatiana, Yeda e Moisés e um número de celular. Informou que Moisés era o nome do cachorro, que ele era muito manso, que eu poderia me aproximar sem receio, caso o encontrasse. Pedi uma descrição do bicho e fiquei sabendo que se tratava de um “sem raça definida” (uma maneira caninamente correta de se referir aos vira-latas), que era de cor escura, parecia um pouco com pastor-alemão e tinha olhos de husky-siberiano, porém de tamanho médio. Prometi ficar atento e se visse um cachorro com essas características e que ligaria se o encontrasse.
Desejei boa-sorte às duas e continuei meu caminho pra casa. No centro do nosso vilarejo encontrei vários peludos das mais diferentes formas e tamanhos. Joaquim Egídio está se transformando numa espécie de “despejo” de cachorros cujos donos, oriundos de outros bairros, costumam “esquece-los” nos finais de semana. Não temos indigentes humanos, mas uma multidão de caninos abandonados que cresce sem parar. Nenhum deles se parecia com pastor ou tinha olhos de husky... Imaginei que Moisés tivesse sido atraído pelo cio de uma das inúmeras cadelas que vivem nas ruas pacatas de Joaquim e que terminada a farra ele voltaria para seu lar.
No dia seguinte, quando ia para a trilha, vi cartazes com fotos em quase todos os postes. A foto era de Moisés. O texto era clássico: Criança doente e gratificação, porém a descrição do fujão não correspondia ao animal da foto. De novo, elas citavam “pintura de pastor” e “olhos de husky”, mas a fotografia exibia um vira-latas puro, tão bem cuidado quanto feinho, não consegui enxergar nada nele que se encaixasse ao que estava escrito.
Imediatamente me lembrei de uma fábula que minha mãe adorava contar sobre uma coruja que teve suas crias supostamente raptadas e saiu desesperada pela floresta perguntando a todos que encontrava se não haviam visto as “crianças mais bonitas do mundo”. Essa “mãe-coruja” foi quem tipificou o comportamento humano de mães e pais que agem como adoradores de seus filhos, ignorando as imperfeições e supervalorizando suas qualidades.
Fiquei imaginando a angústia maternal de Tatiana e Yeda e voltei pra casa para apanhar o celular. Na eventualidade de encontrar o cão boêmio, eu estaria preparado. Naquele dia caminhei mais de 10 km e infelizmente não vi nem sinal do Moisés.
Estou na torcida para que esse adorado vira-latas seja encontrado e volte para suas donas-corujas que tão bem me lembraram que a beleza está nos olhos de quem ama.

Ah é: Para quem não sabe, a fábula não termina bem: As corujinhas foram papadas pela melhor amiga de dona Mãe-Coruja, a senhora Gavião, que não fazia a mínima idéia de que aquelas criaturinhas horrendas que lhe serviram de almoço eram, na verdade, as famosas “crianças mais bonitas do mundo”. Assim contava minha mãe que, por sinal, me achava lindo.

domingo, 8 de abril de 2007

A PÁSCOA DE NARCISO.


Acordo com o repicar do sino da igreja cuja torre pode ser vista de casa. Ainda com os olhos fechados, tomo consciência de meu corpo e ele não se sente muito bem. Possivelmente fez frio durante a noite e eu devo ter me encolhido o que causou esse desconforto. Abro os olhos e percebo que o dia está nublado, no rádio-relógio são 9:02. O sino da igreja volta a soar, lembro que hoje é Páscoa. Venço a preguiça e vou cambaleando até a geladeira, engulo o remédio da pressão com um bom gole de Coca-Light. Pela janela da sala avalio o clima mais atentamente e sinto um desânimo tremendo, tinha tantos planos de faxina para hoje. Acendo o primeiro cigarro e caminho para o banheiro, tentando refazer mentalmente minha agenda. Desisto. Jogo o cigarro no vaso, lavo o rosto, molho os cabelos e a nuca com água fria pra ver se acordo de vez. Escovo os dentes com a cabeça baixa, mirando o ralo da pia, evito me olhar no espelho. Pego, sobre o cesto de roupas, o short preto que usei ontem, volto para o quarto, calço meias brancas, o tênis velho e uma camiseta regata. Passo de novo pela cozinha e ponho na boca um triangulo de Toblerone Dark que comprei ontem à noite numa loja de conveniência. Sento-me à frente do computador e deixo o chocolate derreter no calor da boca, delicioso. Como acontece sempre aos domingos, o Virtua está sem conexão. Não tenho nenhum e-mail novo e estou sem possibilidade receber ou desejar Boa-Páscoa pelo Messenger. Desligo o monitor, ajusto a pequena pochete à cintura, verifico seu conteúdo: O MP3, um pouquinho de dinheiro, um maço de cigarros, o isqueiro paraguaio... Meto um boné na cabeça, saio pra varanda, olho novamente para o céu e quase volto pra cama. Sem muita convicção tranco a porta e enfio também as chaves na pochete. Acendo mais um cigarro e enquanto fumo, fico observando a Kombi que amanhã irá para a pintura, outro conflito se instala: Ela ficará linda, mas eu estarei a pé por uns vinte dias.
Livro-me do cigarro e começo a andar em direção à igreja, logo mudo de idéia e tomo o sentido contrário, resolvo que hoje vou caminhar mais com os olhos e menos com o corpo. Atravesso vagarosamente a pequena vila olhando seu casario que lembra Paraty, especialmente hoje, pelo clima abafado. Saio da rua principal e atravesso a pequena ponte ao lado da capelinha de Santa Rita de Cassia, chegando à trilha. Diferente de todos os dias, dobro à esquerda e acelero em sentido à Sousas. Vejo umas crianças lambuzadas de chocolate e as lembranças de domingos de Páscoa começam a pipocar em minha cabeça. Percebo que hoje é a primeira Páscoa “sem família”. Começo a rir quando identifico uma auto-piedade querendo se instalar em minha alma: Órfão de pai e mãe e descasado, não ganhei nem dei ovos de chocolate pra ninguém. Percebendo que aquele demoniozinho depressivo pretende me acompanhar, aperto o passo e começo a correr, ponho toda minha atenção na respiração, nas passadas e no Milton Nascimento que canta em meus ouvidos. Assim vou até encontrar o asfalto, cerca de um km depois. Faço meia volta e retomo a trilha, agora caminhando e com um humor mais decente. Continuo nesse ritmo até a outra extremidade do circuito principal e lá entro na estrada de terra que leva às montanhas e ao Pico das Cabras. Os primeiros oitenta metros dessa via são extremamente íngremes e eu prefiro vence-los correndo que andando. Logo que inicio a subida escuto, mesmo com os fones de ouvido, o ronco surdo de um motor “Volkswagen a Ar” vindo em minha retaguarda. Fico o mais à direita possível para permitir a passagem do que suponho ser uma Brasília velha. Logo a aceleração do carro diminui e vejo ao meu lado um Bug amarelo com quatro moças gesticulando e gritando. Na faixa dos 30 anos, estão se comportando como adolescentes. Tiro o fone de ouvido e escuto a morena que está em pé no banco traseiro, usando uma tiara com orelhas de lebre gritar: -Corre coelhinho! Corre!
Olho pra traz para ver com quem elas estão mexendo e não vejo ninguém. –É com você mesmo coelhinho! Corre! Todas gargalham ao mesmo tempo enquanto o Bug acelera suavemente e toma distância. Fazem tchau, eu retribuo sorrindo e continuo minha corridinha enquanto elas somem na curva.
Suponho que elas estão passando o feriadão hospedadas em alguma fazenda de região e resolveram azarar os caipiras do pedaço. De qualquer forma, salvaram minha manhã nublada. Aquela brincadeira inocente mudou por completo minha perspectiva para hoje.
Mais uns dois km de corrida e chego à ponte do Ribeirão das Nascentes, onde aproveito as amuradas como apoio para alongar e fazer algumas flexões enquanto contemplo o pequeno curso d’água que serpenteia entre as pedras lá em baixo.
Não se passam nem cinco minutos de minha chegada, escuto novamente o barulho do Bug voltando. Elas surgem de trás do bambuzal na mesma alegria de antes, pulando e gritando todas ao mesmo tempo, dão a impressão de que ainda estão no pique desde o Carnaval.
Ao me verem sobre a ponte, diminuem a velocidade, quase param e retomam as gozações: -Cansou coelhinho? Agora é a motorista loura quem está usando as orelhas de lebre. A morena do banco de trás sabe assobiar alto com dois dedos na boca: -Fiu-fiuuuuu!
Somem novamente na estrada deixando pra trás somente a poeira e o som de suas risadas.
Fico por ali, mais um tempo, ponderando que aquela manhã feia que quase me fez voltar pra cama acabou se tornando a mais divertida em meses, a alegria daquelas “meninas” iluminou minha Páscoa.
Começo o retorno pra casa com passos lentos, percebo que carrego na cara um sorriso pateta e me divirto muito quando descubro que ele está ali desde o “fiu-fiuuuu” da morena. Agora nem adianta tentar disfarçar, ele vai demorar pra sumir.
Paro na lanchonete do posto de gasolina, peço uma salada de frutas, tomo um café e acendo um cigarro. O sorriso pateta continua estampado em meu rosto e me leva a racionalizar que nada daquilo tinha sido dirigido pra mim, que eu simplesmente estava no caminho da felicidade delas e fui alvo de uma brincadeira sem maiores conseqüências. Descubro então que, seja lá qual fosse a motivação delas, eu estava, agora, tentando me boicotar e paro de pensar no assunto, fico apenas curtindo o tal sorriso e deixo que ele tome conta de tudo. Pago a conta da lanchonete, começa a chover e eu acho ótimo.
Vou pra casa sem pressa, deixando a chuva gelada lavar meu corpo e minha alma, praticando uma espécie de batismo de “vida renovada” pelo milagre da Páscoa e de um assobio pra lá de bem-vindo.
Na varanda de casa, ensopado, tiro os tênis, as meias e a camiseta. Destranco a porta e ando rapidamente em direção ao banheiro, mas me detenho diante do espelho grande do corredor. Quase morro de vergonha de mim mesmo quando escuto minha própria voz dizendo: -É... Num ta ruim, não!
Solto uma gargalhada, abandono os pudores intelectuais, acendo a luz e me entrego ao narcisismo explicito. Só o short preto testemunha a minuciosa análise que faço do meu corpo. Desde Fevereiro sem consumir álcool e carne, caminhando e correndo todos os dias, desinchei uns seis quilos. Já não há mais barriga, ou nada no abdomem que avance além da linha do peito, os pneuzinhos desapareceram e sobre os ossos do quadril, agora perceptíveis, o que era convexo tornou-se côncavo, dando a impressão de que o tórax alargou. Perdi centímetros também nos braços e pernas, o que poderia sugerir que fiquei mais fraco, mas há uma harmonia no conjunto, nada de espetacular, mas está harmonioso.
Alcanço a toalha e enquanto me enxugo, fico pensando na capacidade extraordinária de regeneração desse nosso “veículo”, como ele está sempre pronto a voltar ao equilíbrio quando lhe damos oportunidade. Penso ainda que o corpo é o único “bem material” ao qual deveríamos nos apegar, porém, quase nunca cogitamos isso, pois é penoso demais para nós abdicar dos deliciosos maus hábitos que tanto nos seduzem.
O providencial assobio da morena me fez perceber que nesses sessenta dias houve uma notável melhora em minha aparência, também em minha disposição e agora em minha auto-estima. Vou aproveitar esse estímulo e, com o sorriso pateta, tirar também de minha vida as toxinas mentais e sociais que me depreciam e me fazem dependente da aprovação alheia ou de um dia de sol para estar feliz.
Se Páscoa é vida nova, hoje eu recomecei muito bem.
E viva o “fiu-fiuuuuuu”!

domingo, 1 de abril de 2007

PRIMEIRO DE ABRIL




O primeiro de Abril amanheceu lindo. Um domingo de verdade!
As trilhas, habitualmente desertas durante a semana, hoje estavam apinhadas de caminhantes, corredores, ciclistas e cavaleiros de todas as idades, coloridos, equipados, em grupos ou sozinhos, várias famílias representadas em três gerações.


ºo0O0oº



Um pit-bull empaca no meio da ponte mais estreita da trilha e produz um enorme coco, para vergonha de seu musculoso dono que puxa inutilmente o bicho pela coleira, tentando arrasta-lo para um local mais discreto.

Mais adiante, dois casais se reconhecem, trocam beijinhos. O poodle do casal Nº.1 acha que beijinho é pouco e se atraca na perna da moça do casal Nº.2 para constrangimento dos quatro. A dona do peludo dá uma bronca sem muita convicção: -Pára Fô! Assim mamãe não gosta! Não pude disfarçar minha risada quando tentei adivinhar o nome completo do cachorro: Seria Fofo ou Fodão?

Contra o sol, vejo a silhueta magnífica de uma mulher que vem em sentido contrário, mais desfilando do que caminhando. Conforme se aproxima posso identificar os logotipos da Nike espalhados no tênis, na calça de lycra e finalmente na camiseta regata curtíssima que balança graciosamente sustentada pelos seios perfeitamente esféricos. Quando nos cruzamos, consigo enxergar seu rosto, semi-oculto por um par de óculos enorme. Os mais de cinqüenta verões denunciam: Quase nada nela é de verdade, são as maravilhas da cirurgia plástica: Botox, lipo e silicone. Mas tudo bem, afinal hoje é 1º. De Abril

Saio da trilha principal e começo a correr bem suavemente, mas logo tenho que me proteger no barranco para não ser atropelado por uma dúzia de motos off-road que passam rente a mim, levantando uma poeira infernal. Depois de resmungar uns palavrões contra os “forasteiros de finais de semana” decido que hoje, como qualquer domingo, não é um bom dia para correr, apenas para caminhar e observar o comportamento de toda essa gente que sai de seus apartamentos e bairros urbanos e vem pra Joaquim Egídio para “encontrar a paz junto à natureza”.

São predominantemente de classe média, podem se presentear com roupas de grifes, bicicletas caras e possuir cachorros com pedigrees de se pendurar na parede, ao lado do diploma de conclusão do curso superior. A grande maioria freqüenta as trilhas com um propósito que pode ser alcançado num corredor de shopping qualquer: Ver e ser visto. É incrível como gente gosta de gente, de usar máscaras e se aglomerar para comparar seu personagem às interpretações e “guarda-roupas” de seus semelhantes.

Mesmo eu, que subi nesse altar do cinismo investigativo do comportamento humano, estou representando algum papel nesse momento, mas alguém tinha que contar essa história e propor uma nova data revolucionária. Quero criar o dia da verdade, 24 horas sendo nós mesmos, escancaradamente.

A nova versão da historinha seria mais ou menos assim, se hoje fosse o dia da verdade:

Aquele rapaz fortão que tentava arrastar o pit-bull, estaria humildemente pedindo desculpas aos passantes pela inconveniência do local escolhido pelo cão para depositar seus dejetos, ainda se justificando sobre que aquela quantidade desmedida de músculos em seu corpo, bem como possuir um cachorro com fama de feroz eram apenas meios dele esconder uma insegurança incontrolável.

Os casais que se viram constrangidos com o comportamento do Poodle tarado da “mamãe”, certamente sairiam no tapa: -Credo! Que bicho nojento! Diria a moça do casal Nº. 2, ao que reagiria ofendida a “mãe” do canídeo: -Nojento nada, você é que deve estar cheirando como uma cadela. Já o maridão do casal Nº.1 que provavelmente não suporta o cachorrinho da “mamãe” emendaria: -Acho que o “Fô” não é tão estúpido assim, ele leu meus pensamentos... Tragédia na certa.

Aquela senhora “restaurada” estaria caminhando ainda só, porém nua, com uma placa na mão: “Nunca soube ser amada, quero ser admirada”.

Os motoqueiros, encouraçados em suas armaduras de plástico multicoloridas, montando seus veículos fedidos e barulhentos, admitiriam estarem vivendo uma fantasia onde se imaginam heróis guerreiros em busca de um sentido nobre para suas existências. Que foi essa maneira que encontraram de suportar a pequenez de suas vidinhas.

Finalmente eu, depois de esperar a poeira das motos baixar, amaldiçoar os forasteiros, desistir de correr, decidiria apenas caminhar e observar essa gente que vem aqui exibir suas verdades, tentaria, sem dúvida, especular sobre as estranhas mentiras que escondem essas almas.

terça-feira, 27 de março de 2007

O CORAL.




Domingo passado, por volta das nove da noite a pizzaria foi novamente brindada com uma visita pra lá de especial. A cada três ou quatro meses temos a satisfação de servir à um coral, pequeno, mas ótimo.
Não sei o nome do grupo, nem de nenhum dos integrantes. Eles formam uma mesa comprida, normalmente bem no centro do salão interno que tem mais de seis metros de pé-direito e uma acústica de catedral.
O ritual é sempre o mesmo: Depois de comerem e beberem, o regente tira do bolso um diapasão e o faz soar batendo com o dorso de uma faca. Puxa uma nota, experimenta outra e quando alcança o tom ideal, todos eles começam a cantar.
Abaixamos o som ambiente, as outras mesas sequer fazem barulho com os talheres. Ficamos todos envolvidos por esse admirável instrumento que é a voz humana.
É de arrepiar. Lindo, lindo!
Nessa última visita, “beneficiado” pelo fraco movimento, pude ficar bem perto deles enquanto cantavam. Pratiquei “espionagem explicita”. Além de ouvir, espreitei-os por vários ângulos, analisei cada rosto, registrei todos os sorrisos, os movimentos das mãos e as trocas de olhares. Creiam: Eles estavam felizes, muito felizes, quase em êxtase.
Se não fosse por minha mínima timidez e enorme desafinação teria abordado o regente, suplicando de joelhos uma chance de ser uma contribuição anônima naquele som contagiante.
Cantaram umas cinco músicas, receberam os merecidos aplausos em cada uma delas, pagaram a conta e foram embora.
Fiquei lá, meio que paspalho, me questionando do porque não me aproximei, não me apresentei, não ofereci café, ou desconto para que voltassem com mais freqüência. Por que não fiz contato?
Mais tarde, em casa, cheguei à conclusão de que eu fiquei intimidado pela beleza, pela perfeição do que tinha presenciado. Só isso justificaria minha postura petrificada diante deles, coisa que não ocorre com personalidades ou autoridades que igualmente freqüentam a pizzaria.
Fiquei matutando sobre aquela felicidade escancarada que eles transmitiam enquanto cantavam e acho que tirei algumas lições:

1. Não há competição. Para que a perfeição se instale é preciso que cada um fale (cante) somente o que lhe cabe, no volume e momento adequado.
2. Há uma intensa comunicação não verbal onde eles demonstram total atenção aos gestos e ao olhar de seus companheiros.
3. Ocorre uma anulação do individual pelo coletivo.
4. Tudo isso proporciona sorrisos recíprocos que realimentam e potencializam as virtudes anteriores. É nítido como o conjunto melhora a cada segundo de uma música e eles vão ficando mais e mais felizes.

Não satisfeito com minha neo-pseudo-teoria da felicidade cantante, continuei em minhas sóbrias (é sério) divagações sobre a voz e as palavras. Concluí que a maior parte de tudo que ouvimos ou dizemos é lixo; não atende às condições colocadas acima.
Habitualmente as conversas do dia-a-dia são disputas recheadas com repetições, em volume inadequado e interrupções de raciocínio. Raros são os ouvintes que põe total atenção no conteúdo verbal, nos gestos e nos olhares de seus interlocutores com a intenção de captar integralmente o conteúdo do que está sendo proposto.
O individual sobrepõe o coletivo: Uma conversa, qualquer conversa, costuma defender raivosamente pontos de vista, não verdades.
Finalmente, quase nunca sorrimos quando conversamos, Nós rimos, até gargalhamos, mas não sorrimos, pois as motivações são diferentes. Nas conversas rimos e damos sonoras gargalhadas de uma situação cômica, que invariavelmente é quando alguém se ferra.

Já os sorrisos dos cantores daquele coral tinham algo de santo, motivados pela contemplação da beleza construída com a contribuição de cada um.

Estou seriamente inclinado a procurar um coral. Se não for aceito devido à minha desafinação, submeto-me a ficar calado e esperar o momento daquele “estado de graça” para, pelo menos, sorrir com eles.

quarta-feira, 21 de março de 2007

UM ANO-NOVO PRA CHAMAR DE MEU.

É Outono.
Aprendi a amar essa estação quando a entendi como uma Primavera de trás-pra-frente.
As temperaturas amenizando, as sombras se alongando e as trilhas, onde caminho todos os dias, perdendo muitos dos seus verdes. É a temporada dos sépias. Já quase não se ouvem mais os sabiás, as corruíras calaram-se em fevereiro, os ribeirões próximos de casa começaram a minguar. A vida está entrando novamente em um período de recolhimento e nos convida à reflexão.
Hoje, enquanto caminhava, revi datas importantes de minha vida e cheguei à conclusão de que os quarenta e cinco 31 de Dezembro que comemorei nunca trouxeram nenhuma mudança significativa nos rumos de minha existência. Já os 30 de Junho acumulam a data de meu casamento em 1979, o primeiro dia de trabalho na Coca-Cola em 1981 e também o último dia nessa companhia em 1985, no dia seguinte eu iniciava minha carreira solo, primeiro como representante comercial e exatamente um ano mais tarde como comerciante. Também foi nesse período do ano passado que decidi que o relacionamento iniciado 27 Invernos antes havia chegado ao fim. Suponho que todas outras datas importantes de minha vida situam-se no segundo semestre: o nascimento de meu filho em Dezembro, o meu próprio em Novembro, a fundação da minha extinta loja de bebidas, a mudança dela para um endereço chique e a posterior abertura da pizzaria em Outubros. Ainda fatos tristes, mas não menos reorientadores como a morte de meu pai em Outubro de 1982 e de minha mãe no Julho de 2003.
Baseado nisso, acabo de decretar uma nova data para meu ano-novo particular: 21 de Junho. Acho que faz mais sentido: É início do inverno no hemisfério sul, o fundo do poço para quem mora abaixo do equador. Daí pra frente, a vida tende a prosperar novamente, as noites vão encurtar, os dias espichar, as sementes preparam-se para absorver a água e o calor do sol dos próximos meses. Nos pastos, cabras e ovelhas entram em seu período fértil. A orquestra da natureza começa seu ensaio para a as grandes sinfonias da Primavera e do Verão.
Desse ano em diante vou festejar o solstício de Inverno, o fim da fossa, a promessa de vida que se renova por toda parte, vou ajustar meu calendário e criar novos rituais: Em vez de pular ondinhas, tomar cerveja e me empanturrar de peru, leitoa e salpicão vestido de branco, vou convidar os amigos para, usando agasalhos amarelos ou vermelhos, saborear uma sopa de legumes, torradas com ervas, talvez um fondue e apreciar um bom tinto junto à fogueira. Podemos petiscar pipocas, amendoins, batatas-doce... De sobremesa um doce de abóbora com coco queimado ou um bolo de cenoura com mel e cobertura de chocolate meio-amargo.
Nada de rojões, gritos e espocar de champagnes que denunciam uma falsa felicidade histérica.
Nessa noite fria, convém que conversemos com os corações abertos sobre nossos projetos e sonhos para o período fértil que se inicia. Declararemos nossos propósitos: parar de fumar, voltar para a academia, aprender espanhol ou chinês, listar os livros que leremos... Mas devemos, principalmente, renovar nossos laços de amizade e solidariedade. Ao invés de trocarmos abraços ébrios, vigorosos e vazios como nos reveillons dezembrinos, permanecermos todos com as mãos e os braços dados, aconchegados uns nos outros com a serenidade dos que sabem que a vida está prestes a florescer novamente.

Coloque na agenda:
SOLSTÍCIO DE INVERNO EM 2007:
Dia 21 de Junho, quinta-feira – 15H07min.

segunda-feira, 19 de março de 2007

CAMELÔ FILOSÓFICO Nº. 2 - AMA QUE O FILHO É TEU!


(para Maumau & Cacá)

Tenho um amigo antigo e muito especial que há cerca de 15 anos tornou-se um casal. Ao contrário do que costuma acontecer, a transformação dele em dois nos aproximou ainda mais. Sua mulher soube receber e ser bem-vinda por todos que o conheciam anteriormente.
Desde então acompanhamos mutuamente o desenrolar de nossas vidas com o respeito à individualidade e ao “espaço” necessários às amizades duradouras. As vezes passamos meses sem nos ver, noutros períodos nos encontramos todos os dias. Há tempos que é mais gostoso estar com ele, e passar horas trocando desacatos e fazendo gozações sobre tudo e todos, outras vezes é delicioso estar com ela “levando um papo-cabeça”. Mas o melhor mesmo é estar com os dois simultaneamente e ficar completamente atordoado com suas enormes afinidades e gigantescas diferenças que eles administram tão bem.
Semana passada, fiquei muito feliz ao receber a noticia que o casal vai se transformar em um trio, ou quarteto, ou quinteto... Sei lá. O que importa é que eles embarcaram na fantástica aventura de gerar alguém, de cuidar de alguém, de educar e, principalmente amar esse alguém.
Ao contrário da minha história, eles já estão maduros, com a vida financeira estabilizada e podem traçar uma estratégia para os próximos anos ao lado das crias. Isso é ótimo e pode evitar muitos erros que eu, por exemplo, cometi. Eu “me vi pai” aos dezoito anos e aquela situação, na época, me trouxe mais responsabilidades do que realização. Foi uma pena. Encarar um momento tão especial como esse sob a sombra dos compromissos e obrigações me fez perder muito. Dentre todas as trapalhadas, a que mais me entristece até hoje é não ter deixado claro o meu amor incondicional ao filhote e por isso não ter usufruído plenamente aqueles dias.
É óbvio que sempre amei meu filho, agora mais do que nunca, pois amo também o amigo e a pessoa extraordinária que ele se tornou, mas durante seu crescimento atropelei, com minha precoce rigidez, inúmeras oportunidades de demonstrar meu amor a ele nos momentos em que mais precisava: Quando ele errava, quando ele falhava...
Eu achava que criar e educar era uma tarefa que só se fazia com repreensões, olhares monstruosos e castigos. Ainda acredito que possa ser uma boa técnica, desde que fique sempre evidente que independente de qualquer travessura e correspondente castigo, que a criança é amada. Muito amada.
Meu engano foi entender que cada deslize do filho revelava uma falha minha na tarefa de educa-lo. Nos primeiros anos não conseguia vê-lo como um indivíduo, tratava-o como uma extensão rebelde de mim mesmo.
Se pudesse voltar no tempo, acho que não o pouparia de nenhuma das repreensões e castigos que apliquei, mas com o que sei hoje, essas medidas disciplinadoras não teriam a carga emocional que eu costumava empregar nesses episódios. Agora, mais maduro, seria um pai fleumático, argumentador incansável, quase cínico: -Querido, não adianta choramingar. Eu não vou te dar esse brinquedo hoje. Por favor não insista. Estou preparado para te dizer não um milhão de vezes, até que você entenda. Vamos mudar de assunto? Vem cá e me dá um beijo.
Ainda, teria mais tempo pra ele e suas aborrecidas sessões de perguntas intermináveis, daria mais banhos, mais sorvetes e pipocas, mais guerras de travesseiros, mais horas e passeios só nós dois.
Aprendi com meus erros que filhos não são empreendimentos. Os filhos, como os pais não são. Eles estão. Estão vivendo uma versão de si mesmos, que seguramente não será a mesma daqui alguns dias, alguns meses ou alguns anos. Estão em contínuo processo de mudança e quase sempre evoluindo. Portanto, não há que se dar gravidade ao que é passageiro.
Essa aventura, essa viagem, passa muito rapidamente, portanto amigos, levem a máquina fotográfica da sabedoria para que se revele nas lembranças o amor incondicional pelos companheiros mais novos, cujas guardas nos foram dadas. Algumas fotos podem não ficar tão boas, nem muito nítidas ou alegres. Mas que todas tenham sido “iluminadas pelo amor”.
Ninguém disse nada mais adequado do que Che Guevara para encerrar esse texto: “Hai (algumas vezes) que endurecer, pero sin perder la ternura, jamás”!
em tempo: Na foto meus pais e eu em Bertioga, verão de 1962/63 .

quarta-feira, 14 de março de 2007

TESTAMENTO


Existe uma síndrome, que não é incomum, cujos sintomas precedem as tempestades de verão. Tem alguma relação com a ionização do ar nas camadas mais próximas ao solo. Os indivíduos acometidos por ela manifestam sintomas horríveis como tonturas, moleza generalizada, falta de concentração, deficiência respiratória e outros tantos que nem vale a pena citar. Quanto maior a promessa de tempestade, mais fortes são os sintomas que cessam como mágica no primeiro vento úmido de chuva que atinge o infeliz.
No início do verão é sempre mais dramático, não sei explicar a razão.
Eu sou um desses barômetros humanos e dias depois do meu aniversário, em novembro último, fui surpreendido com a primeira crise da temporada e a mais violenta que já experimentei. Estava em casa sozinho quando os sintomas chegaram todos de uma vez em sua intensidade máxima. Mal conseguia respirar. Entrei em pânico e achei que ia morrer. A coisa foi tão inesperada que não associei os sintomas ao clima, já que normalmente o mal-estar vem chegando de mansinho.
Quieto, nessa cadeira onde digito agora, comecei a imaginar que deveria abrir a porta para facilitar um eventual socorro ou até a entrada do IML. Mas não conseguia me mover.
Pra quem tem um pé na hipocondria é fácil nessas horas até ler o obituário do dia seguinte com seu nome em destaque.
Pensei em ligar para alguém. Mas pra quem? Se chamasse a recém-ex-mulher seria um vexame, caso eu não morresse. Ligar pro filho? A ex ficaria sabendo do mesmo modo. Que situação...
Esse inferno durou uns quarenta minutos até que a tormenta chegou violenta e levou embora todo meu sofrimento, instantaneamente.
Feliz da vida, saí para o jardim e me encharquei de chuva numa alegria de ressuscitado. Que bom que era só a tal síndrome barométrica. Que bom que eu não liguei pra ninguém.
Mesmo molhado, voltei pra frente do computador e, meditando sobre todos os maus pensamentos que tive, escrevi com rimas mancas um romântico (rsrsrs) adeus.
Na prosa já tropeço em cada vírgula, escrever em versos então, para quem nunca estudou métrica, só é permitido para quem acabou de “escapar da morte”.
Peço perdão pela pobreza de estilo e prometo não tentar mais coisas assim.

Testamento:

Amigo, chore.
Mas só por hoje. Chore.
Vá lá em casa e explore
Ache umas cartas de amor,
E um pouco de humor
Gravados no computador

Tem ainda guardados
Uns poucos trocados
Embrulhados num cobertor

Gaste tudo hoje
Chame os amigos
E também os inimigos
A cada um, em meu nome
Da-lhes uma flor.

Faça hoje uma festa
Até pra quem não presta
Pois não tenho mais rancor
Vive o que te resta
Põe um sinal na testa
Fala do meu Amor

Descansei, adormeci, serenei
As canelas, estiquei
O paletó, abotoei
Já não sei mais quem sou
Foi-se o ego
No último prego
Que o papa-defunto pregou

Vasculhe minha carcaça
Veja o que sobrou
Pra quem precisa dê de graça
Os pedaços sem cachaça
Mas não diga quem doou

Menos o coração
Que agora arrebentou
Peço especial atenção
Pois foi ele que me matou
Não pela vida desregrada
Mas pela falta da amada
Que você me apresentou

Entrega a ela o meu algoz
Fala com minha voz:

Eis aqui o que sobrou
Do amigo que tanto te amou
Discreto defunto
O que mais queria
Era de ti ficar junto

Permito que ria
Já que não tinha outro assunto
Que não fosse tua alegria

Seu último desejo
Antes que a vida lhe desse despejo
É que tu, em oração
Procure um jazigo
Que sirva de abrigo
Pro seu coração

E mais um pedido:
Que escreva na pedra
Sobre o teu apelido
Me espera, querido

terça-feira, 13 de março de 2007

DIÁRIO DO DELIVERY Nº 06 - O ESPECIALISTA


Eu: -República, Boa Noite.
Cliente: -Quanto fica pra mandar uma Pepperoni aqui no Jardim Botânico?
Eu: -R$ 34,95
Cliente: -Mas eu estou aqui com o site de vocês na minha frente e o preço está R$ 31,50!
Eu: -Seus “poup-ups” estão bloqueados?
Cliente: -É, estão.
Eu: -Desbloqueie, por favor...
Cliente: -Comissão dos entregadores? Vocês cobram para entregar?
Eu: -Não. Conforme está escrito aí, é Comissão dos Entregadores. Eles são autônomos, vivem disso. Nosso negócio aqui é vender pizzas. Prestar o serviço de entrega é lá com eles...
Cliente: -Você não acha que R$ 3,45 é muito para vir daí até o Botânico?
Eu: -Os entregadores não acham. Eles são responsáveis pela integridade da pizza até que chegue às suas mãos. Se eles estragarem alguma pizza, o que não é raro, pagam. Além disso, a moto, a mochila e a gasolina são deles.
Cliente: -Vocês mandam um refrigerante “free”?
Eu: -Como é mesmo o seu telefone?
Cliente: -3258-XYZX
Eu: -Tadeu?
Cliente: Isso, do Jardim Botânico.
Eu: -Ô Tadeu... Você é cliente desde 2000, não lembro de você, nem mais ninguém ter questionado tanto assim. Nosso sistema é o mesmo desde a inauguração, há dez anos.
Cliente: -É que eu sou especialista em gestão de varejo e fico inquieto com negócios que tem um potencial enorme e se perdem nas velhas regras...
Eu: -Como você acha que deveria ser feito? Se a pizzaria fosse sua, quais as modificações que você faria?
Cliente: -Esse negócio de cobrar a entrega, por exemplo... Eu faria a entrega de graça.
Eu: -E de onde sairia o dinheiro para pagar os entregadores?
Cliente: -Tem que fazer como os grandes... Embutir tudo. O consumidor gosta de levar vantagem. Ele não se importa de pagar R$ 50,00 numa pizza de mussarela, desde que não pague a entrega, ganhe o refrigerante ou uma sobremesa.
Eu: -Acho que não saberia trabalhar assim...
Cliente: -Veja aquelas ofertas da Polloshopp na TV... Eles dizem que te dão mais isso, mais aquilo e, se você for um dos primeiros a ligar ainda ganha mais uma bugiganga...
Eu: -Só o fato de nós pagarmos os entregadores em lugar dos clientes, que são os que realmente usam o serviço, o custo de entrega já iria dobrar. Caracterizaria uma relação de trabalho estável com todos os encargos sociais.
Cliente: -Bobagem... Faça as contas e embuta tudo... Seus clientes são diferenciados, dinheiro não é o problema, não vão nem perceber. E você ainda vai gerar fidelidade.
Eu: -Tadeu, considerando que meu cliente está situado principalmente nas classes A e B, entre eles há até gestores de varejo, que é o seu caso, como é que eu explico para os que vem buscar suas pizzas aqui que o preço é o mesmo de quando ele recebe em casa?
Cliente: -O consumidor não pensa nisso. Ele quer benefícios agregados. O resto é balela.
Eu: -Acho que será muito difícil mudar a cultura da empresa depois de 10 anos...Mesmo internamente, nós temos uma política de transparência diante dos nossos funcionários que ficaria comprometida.
Cliente: -Como assim?
Eu: -Sabe aquela máxima que diz que “quem fala a verdade não precisa se lembrar de nada”?
Cliente: -Não conhecia. Também acho que não entendi.
Eu: -Aqui é muito claro que nós não damos nada porque não ganhamos nada, temos que comprar tudo. Isso é um negócio e para sobreviver precisamos trabalhar buscando o lucro. Meus funcionários sabem que atum e calabresa não dão em árvores, nós pagamos quando compramos e temos que lucrar quando vendemos. Se implantarmos aqui essa política do tudo “free” vai parecer que isso aqui é a casa da mãe Joana, pode comer tudo, beber tudo. É de graça mesmo... Mas de qualquer forma vou pensar sobre sua proposta.
Cliente: -Minha mãe chama-se Joana.
Eu: -Perdão, não tive a intenção.
Cliente: -Tudo bem. Manda a pizza então. Quanto era mesmo? Vê se dá um desconto pela consultoria, hehehehe!
Eu: -Só um minutinho... De R$ 61, 80 por R$ 59,99.
Cliente: -Ô louco! Não era trinta e pouco?
Eu: São os “benefícios agregados”. Comprando essa pizza você ganha também uma borda recheada, três sobremesas e um refrigerante de dois litros a escolher. Além disso, você não pagará nada mais para receber aí na sua casa.
Cliente: -Háháháhá! Muito boa! Mas não precisava exagerar! Háháhá!
Eu: -É que eu sou novo nesse negócio. Mas vou aprender.
Cliente: -Acho que vou buscar a pizza aí, assim a gente toma um chope e eu te explico melhor como funciona essa história toda.
Eu: -Ok, Tadeu, dentro de uns 15 minutos a pizza vai estar pronta, você pode retirar. Mas infelizmente eu não vou estar aqui quando você chegar, tenho uma emergência comercial para resolver.
Cliente: -Emergência comercial? Às 11:00 da noite?
Eu: -É! Cancelar um pedido que eu fiz na Polloshop hoje à tarde.
Cliente: -Você ta brincando!?
Eu: -Claro que estou. Vem pra cá que eu pago o chope.
Cliente: -Háháháhá! Até já!
Eu: -Até já, Tadeu.

domingo, 11 de março de 2007

CHATOS CONTEMPORÂNEOS


Caro leitor,
Ando matutando se o passar dos anos vem me deixando menos tolerante ou se a população de chatos vem aumentando de uma maneira alarmante. Similar ao aquecimento global
Esse texto não trata do parasita, que é facilmente eliminado e até evitado se adotamos a postura higiênica correta. Falo do mala-sem-alça, do purgante, do gangorra, do inconveniente, do esperto, do folgado, do espalha-roda. Falo de uma legião de homens, mulheres que acordam todos os dias com o único propósito de enervar a espécie humana.
Semana passada tive um dia especialmente aborrecido. Parecia um complô, cheguei a procurar por câmeras escondidas espreitando meu chilique iminente e a conseqüente revelação da “pegadinha”. Resolvi então anotar todos os ataques que sofri e criei uma espécie de teste, que sem falsa modéstia (que é coisa de chato), considero de utilidade pública.
O teste é muito prático, se as respostas forem sim, você é um chato. Não tem aquela chatice de ficar anotando pontos e depois verificar qual seu perfil de chato. Isso seria perda de tempo, pois um chato é um chato, o que muda é o grau de tolerância da vítima. Vamos ao teste:
1. Se você é comerciante e utiliza como meio de comunicação aqueles carros de som berrando o dia inteiro as imperdíveis ofertas do seu estabelecimento, meu amigo, você é chato. Um anúncio impresso permite o leitor escolher se quer ler ou não. O mesmo ocorre com TV ou rádio, que possibilitam a mudança de canal. Mas o som do tal carro invade nossas casas, nosso sono, nossa privacidade, enfim: enche o saco. Considero até uma anti-propaganda e estou boicotando quem pratica.
2. Se você preza tanto o seu automóvel que não pode guardar latinhas, pacotes de bolacha, maços de cigarro, panfletos e outros lixos até chegar à sua casa e os atira pela janela emporcalhando o espaço público, sinto informar, você é chato.
3. Se esse seu prezado automóvel também costuma ficar parado atrás de outros carros devidamente estacionados em padarias, bancos, farmácias, etc., com a desculpa de que é só um minutinho, além de chato você é burro ou mentiroso. Como é que chegando depois, você pretende sair primeiro? Claro que há a possibilidade de você ser um chato profissional, do tipo que pára o carro assim e fura fila, “pra chatear por menos tempo”.
4. Já que falamos em filas... Você é aquele que no self-service vem encostando, empurrando e apressando quem está a sua frente? Ou estende o braço para capturar o último bolinho de arroz que por direito seria do seu antecessor? Ou pior. Anda em sentido contrário ao fluxo de todo mundo? Se a resposta for sim, você é muito chato!
5. Se no restaurante, você sendo não fumante, senta-se na área reservada aos tabagistas e fica o tempo todo reclamando com os garçons e fazendo cara feia, você é chato. Pode ser até de uma espécie mutante, aquela que deixa de fumar para só chatear quem fuma.
6. Do mesmo modo, se você é adepto da fumaça e insiste em acender seu cigarro na área de não fumantes, você é um chato daquele tipo invasor, como o do carro de som.
7. Ainda no restaurante, se você gosta de fechar negócios, contar piadas, gargalhar ou bater boca com alguém pelo celular, você é chato. Há graus de chatice nesse caso que variam de acordo com o estilo do restaurante, e o volume e duração da conversa. Conheço uns poucos exemplares da sua espécie que são tão discretos nem deveriam ser catalogados nessa categoria.
8. Mas se você além de praticar essa inconveniência em restaurantes, também atende seu celular em cinemas, teatros, missas e velórios... Meu caro, se chatice fosse contra a lei, você seria julgado por crime hediondo.
9. Se você se considera um esportista porque comprou uma moto “off-road” e aos finais de semana, fantasiado de jóquei, sai pelas trilhas e estradas públicas de terra, em alta velocidade, levantando poeira, fedendo óleo dois tempos e fazendo uma barulheira infernal, você é muito, mas muito chato mesmo e pior, costuma andar em bandos e coloca em risco, além da própria vida, também a de pacatos caminhantes e pedalantes, cavalgantes e cavalgados.
10. Mesmo que caminhos de terra não sejam a sua praia, mas você se aventura no asfalto sobre uma moto não menos barulhenta e/ou fedida, pilota inconsequentemente e costuma cumprimentar outros da sua espécie com estouros do motor, você é do tipo chato-varejeira: Mais hora, menos hora, isso vai acabar em merda.
11. Se por excesso de rodas e pneus você não se enquadra nos dois tipos anteriores, mas dirige seu carro como se fosse um kart, colando nos veículos da frente, acelerando ruidosamente, cantando pneus e ouvindo aquela “música” bate-estaca a todo volume, você é um chato previsível: Do tipo que nunca chega de surpresa.
Espero que o dileto leitor tenha dito não a todas as questões, porém, no caso de ter se identificado com uma ou mais das espécies aqui listadas, não deve se desesperar, existe cura: Cidadania.

quarta-feira, 7 de março de 2007

DIÁRIO DO DELIVERY Nº. 5 - O CARTÃO




Eu: -República, Boa Noite
Cliente: -Oi!
Eu: -Oi! No que posso ajudar?
Cliente: -É que eu recebi aqui um cardapinho de vocês, e aqui ta que eu posso pagar com Cartão de Crédito... Como funciona? O motoboy traz a maquininha?
Eu: -Não é preciso levar a maquininha. Você me fornece o número do seu cartão, a validade e o código de segurança e nós fazemos a venda como se o cartão estivesse aqui... O motoboy leva apenas o comprovante para você assinar. Como nas compras pela internet.
Cliente: -Nossa, acho isso meio inseguro. Nunca comprei pela internet. Já ouvi cada história...
Eu: -Qual é mesmo o seu telefone?
Cliente: -3258-XXYY
Eu: -Eugênia?
Cliente: -Isso.
Eu: -Olha, Eugênia, o procedimento é completamente seguro... As empresas de cartões não liberam essa facilidade para qualquer estabelecimento... Pode ficar tranqüila.
Cliente: -E o valor? Você pode colocar qualquer um?
Eu: -Teoricamente, sim. Mas você vai assinar o comprovante da operação e ficar com uma via do cupom.
Cliente: -Mas se você fizer uma venda no valor correto e me mandar o comprovante... aí você já tem os meus dados pode fazer outra venda muuuuito maior.
Eu: -Teoricamente poderia. Mas, Eugênia, você já é nossa cliente desde 1999. Estou estranhando essa sua desconfiança...
Cliente: -Estranhando por que? Hoje em dia... sabe como é...
Eu: -É que eu acho meio paranóico ficar insegura de pagar com o cartão na pizzaria que te fornece há seis anos... Você confia na qualidade dos ingredientes que usamos aqui, na nossa higiene, mas não confia em pagar com cartão? Você nunca desconfiou que a gente pudesse te envenenar?
Cliente: -Não é que eu não confie... É que eu sou meio caipira pra essas coisas mesmo...
Eu: -Eugênia, tenho uma boa notícia pra você: Pagar com cartão não é obrigatório, é apenas mais uma opção. Você ainda pode pagar com dinheiro, cheque, tickets...
Cliente: -Acho que eu vou arriscar...
Eu: -Vamos fazer assim: Depois que você fizer o pedido a gente escolhe o meio de pagamento, ok?
Cliente: -Ta. É uma de Mussarela.
Eu: -Certo. Refrigerantes, sobremesas?
Cliente: -Não. Só a Pizza. Quanto fica?
Eu: -R$ 19,60.
Cliente: -Vou pagar no cartão.
Eu: -Qual é a bandeira?
Cliente: -Visa.
Eu: -Me passe agora os 16 números do cartão, mês e ano de validade e o código de segurança impresso no verso, composto de 3 dígitos.
Cliente: 3693.0100.XXXX. 4225 – Validade... 06/08... e os dígitos: 552
Eu: -Ótimo. Daqui há pouco a pizza e o comprovante chegarão à sua casa.
Cliente: -Obrigada.
Eu: -Sou eu quem agradece, boa noite.
Cliente: -Boa noite.

Minutos depois...

Cliente: -Alô.
Eu: -Eugênia?
Cliente: -Sim?
Eu: -Aqui é o César, da pizzaria... Seu cartão não passou!
Cliente: -Ué? Por que?
Eu: -Isso eu não sei informar. Na telinha só aparece Transação Não Autorizada. Não dá pra saber o motivo.
Cliente: -Tenta de novo.
Eu: -Já tentei. Três vezes.
Cliente: -Posso te dar um cheque?
Eu: -Claro.
Cliente: -Só que tem que ser pro quinto dia útil... dia 7. Tudo bem?
Eu: -Sem problemas...
Cliente: -Moço! Não tem perigo do cheque cair antes?
Eu: -NÃO! BOA NOITE!
Cliente: -Olha lá, hein...
Eu: ...
Cliente: -Moço!
Eu: -FALA!
Cliente: -Nada não. Boa noite.