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terça-feira, 22 de abril de 2008

AVISO-PRÉVIO.

(Caixas de tomate na CEASA - Foto minha enquanto a serviço da pizzaria, é claro)


As coisas que eu mais gosto são muito simples:

Caminhar à tardezinha, pedalar de manhã, café e pão com manteiga na padaria, comprar jornal na banca, comer pastel na feira, Toddy batido no mixer, Chicabom, pudim de leite condensado, tostex de queijo branco, pipoca com molho de pimenta, cochilar na rede lendo um bom livro, cafuné (na careca mesmo), vestir roupa velha bem lavada e bem passada depois de um banho caprichado, viajar de qualquer forma, e conversar... Adoro conversar. Gosto de falar sobre o tempo, sobre comidas, livros, filosofar sobre gentes, experiências e causos... Gosto de ouvir, de forma profunda, de aprender com os outros.

Também amo abraços apertados e beijos estalados como só os verdadeiros amigos e amigas podem retribuir.

Abriria mão de todos meus outros gostos sofisticados para poder usufruir somente destes “momentos essenciais”.

A falta dessas coisas está me angustiando. Estou sendo transformando num ser estranho, anti-social e só, inacreditavelmente só. Pode parecer loucura alguém que tem contato com no mínimo cinqüenta pessoas todos os dias se queixar de solidão, mas não é: Aconteceu que ao longo dos últimos onze anos meus relacionamentos foram se resumindo aos laços comerciais, o César “gente” foi cedendo espaço para o Cury comerciante que praticamente mora numa pizzaria, que trabalha todos os dias e noites e não consegue ir para a cama antes das três da madrugada. Um cara que quando acorda antes das onze é para cumprir com compromissos impostos pelo negócio.

A criatura engoliu o criador que está surtando.

Não agüento mais falar sobre pizzas e cervejas, sorrir forçado da mesma piada contada pela enésima vez, responder que não vi tal peça de teatro, que não fui ao cinema, que não vou ao aniversário de ninguém, que não assisto televisão (não que o fizesse se fosse possível), que não conheço a Pizzaria Bráz, que nunca fui ao Cartun, que perdi o Cirque du Soleil, o show do Chico, do Ney, da Maria Rita, e que há dez anos não vejo o mar.

Claro que a pizzaria me proporcionou conhecer pessoas especiais como Fábio, Karin, Suzy, Gustavo, Israel, Abrão, Neiri, Lobão, Silvinha, Mazon e tantos outros e outras, mas eu não consigo usufruir deles... Quando vão à pizzaria fico dividido entre os amigos e o trabalho e fora da pizzaria eu simplesmente não existo. Nunca consigo estar com eles em outro lugar, aliás eu nunca estou em outro lugar.

Numa tentativa desesperada tentei delegar atribuições para conseguir tempo. Creio que acertei na teoria, mas errei feio na prática: Resultou num retrocesso operacional de uns seis meses e em prejuízos que devem alcançar o equivalente a noventa dias de lucro. – Ta vendo? Nem sei mais falar apenas do que eu sinto, já ia enveredando por assuntos comerciais!

Por tudo isso e, especialmente, porque estou morrendo de saudades de mim, a pizzaria está à venda a partir de hoje.

Se tudo der certo, brevemente a gente se encontra pra um pastel na feira.

domingo, 13 de abril de 2008

SONHO RECORRENTE.



Essa coisa de ficar ouvindo a narrativa de sonhos alheios é quase tão chata quanto ver fotografias das férias dos amigos em Orlando. Mas resolvi escrever (e ilustrar) sobre um sonho recorrente numa tentativa de destravá-lo. Quem sabe assim eu “provoco” os próximos capítulos.

Já tive sonhos recorrentes em diversos períodos, porém há cerca de um ano visito a mesma cena misteriosa ao menos uma vez por semana:

O cenário é muito simples, já foi um deserto, mas ultimamente quase sempre é uma praia. O elemento preponderante é a areia. O sol brilha muito, mas a temperatura é amena. Quando o sonho se passa na praia posso ouvir o barulho do mar, já no deserto, ouço apenas a respiração dos personagens.
Os protagonistas são apenas uma mulher (balzaquiana) e eu. Nós dois usamos calças jeans e mais nada. Normalmente estou sentado sobre meus calcanhares e ela fica postada da mesma forma atrás de mim. Ela usa uma espécie de pincel para escrever diretamente na pele das minhas costas. Quase sempre meu ângulo de visão permite que eu me veja “de fora”, mas nunca consigo ler o que ela escreve, da mesma forma também não tenho oportunidade de ver o seu rosto, sempre coberto por cabelos castanhos avermelhados, quase ruivos. Sua pele é muito branca e tem mãos bonitas.

É claro que rola um forte erotismo, mas o mais marcante é o clima de cumplicidade, de confiança recíproca, de entrega. Sei que, de alguma forma, estabelecemos um pacto de silêncio e, que naquele momento, tudo está perfeito.


Só quando acordo é que sou perturbado pelas dúvidas:

  • Quem é ou como é o rosto dessa mulher?
  • O que ela escreve (ou desenha) em minhas costas?
  • Por que o silêncio?
  • O que significa essa maluquice? Eu dou “suporte” para ela se expressar?
  • Quando verei a próxima cena?

Plim-plim!

quinta-feira, 20 de março de 2008

O ÔNUS DO CARRASCO.

É inevitável. Terei que fazer novamente.

Perdi a conta de quantas pessoas tive que demitir. É sempre um peso enorme para mim que jamais fui exonerado. Não conheço essa rejeição e talvez, até por isso, valorize demais a dor do rejeitado.
Tento, numa relação trabalhista, manter um equilíbrio entre o profissionalismo e a cortesia, mas raramente encontro reciprocidade. Novamente estou prestes a demitir alguém que se considera meu amigo, que confundiu trabalho com amizade.
Simplesmente não posso tolerar, bem que gostaria, mas não posso. Minha pequena empresa sobrevive graças ao rígido controle sobre cada gasto, cada investimento e não posso me dar ao luxo de dar asas a mais um sonhador como eu.
Essa é a maior dor: Estou afiando a lâmina da guilhotina para degolar alguém muito parecido comigo. Quando ele me procurou e desfiou seu rosário de atributos profissionais, ajudei-o a me convencer que seria uma ótima oportunidade para nós dois. Estávamos divagando no irreal mundo das hipóteses otimistas. Supus que ele conhecesse o caminho das pedras para fazer da pizzaria o negócio que sempre sonhei. O ideal que até então era só meu, naquela hora pareceu partilhado, compreendido.
Com o passar dos meses descobri que ele só tinha aquilo para me dar, ou seja, meus próprios sonhos.
Todas as melhorias implantadas por ele eram óbvias havia anos, só faltava a ação que ocorreu em duas ou três semanas. Aí o encanto acabou.
O aumento no faturamento desde a sua chegada nunca sequer cobriu a remuneração que recebe, ou seja: Contribuiu bastante, mas seu estoque de inovações acabou ou esbarrou na capacidade de investimento da pizzaria. A conta não fecha mais. Não tem como continuar.
Além de todos os detalhes econômicos, existem os entraves pessoais: Não posso mais conviver com alguém que tomou meu lugar de sonhador, que é mais irresponsável que eu, bebe mais do que eu, que aumentou minha carga de trabalho, criou desarmonia interna e externa e ainda por cima, ganha mais do que eu.
Enquanto não tomo coragem para dizer “hasta luego, baby”, ficarei aqui contemplando o brilho da lâmina e o engenhoso mecanismo da guilhotina como se o pescoço fosse de importância secundária. Assim fica mais fácil superar o desânimo que me referi na postagem anterior.

Ao carrasco restam os respingos e o inesquecível olhar do degolado. Nenhuma glória.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Ioga não é Yoga, mas é bom também.

Acabei de ler IOGA PARA QUEM NÃO ESTÁ NEM AÍ de Geoff Dyer (Companhia das Letras) com excelente tradução (ou versão) de Sergio Flaksman.

O cara narra situações hilárias, nos lugares mais estranhos do planeta e/ou da sua alma.

Recomendo.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

DÃO ENCHE!

Resolução tardia de ano-novo:

A partir de hoje (decidi ontem) só vou me dedicar às exigências da pizzaria após as 13H00min. Isso reduz minha rotina para apenas 12 ou 13 horas diárias, sete dias por semana.

Comecei mal: Acordei muito antes das nove, como pretendia, com uma ligação a cobrar no meu celular. Era o entregador de papel higiênico:

-Seo Celso?
-Dão, César. _Falei surpreso com a voz de pato que saiu de minha boca e com a garganta arranhado também.
-Posso falar com seo Celso?
-Dão dem nenhum Celso aqui. Beu nome é César. Bode ser?
-Ah, seo “Cérzar”, eu to aqui pra entregar seus produtos da Kimberly. O senhor pode abrir o restaurante?
-Dão bai dar. O horário de entrega dão ta escrito aí na nota?
-Tá sim, mas é que eu vim aqui perto...
-E eu to longe. Bolta à tarde.
-Posso deixar na vizinha?
-Dão! Bolta no horário que está aí na porra da nota-biscal!
-O senhor não precisa ficar nervoso.
-Dão precisava mesmo, boi bocê que me deixou assim. Bolta à tarde conforme o combinado com a bendedora.
-Tudo bem então. Obrigado.
-Dão tem de quê.

Olhei pra manhã perfeita e a minha bicicleta na varanda. Tive ímpetos de ignorar o resfriado que se alojou em mim durante a noite, mas fui interrompido em meus planos por uma crise de tosse.

-Dudo bem. Bica bra amanhã. _Grasnei sozinho.

O celular tocou a cobrar novamente:

-Alô!
-Seo "Cérzar"?
-Dão, o César saiu.
-É que...Nada não. Pode deixar.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Inveja.

Chega de inveja!

Já que ninguém faz um depoimento pra mim no Orkut, fá-lo-ei eu mesmo...





Nota do editor: Esse depoimento é (ou não) uma obra de ficção. As pessoas reais ou imaginárias citadas nesse documento são uma só. Homenageado e homenageante citados aqui como CÉSAR, EU, MIM OU NÓS, autorizaram essa publicação. Qualquer semelhança com fatos e pessoas reais deve-se a uma estranha coincidência, previsível homonimidade ou péssima literatura.

César. O que dizer do César? – (Depoimento no Orkut que se preza começa assim).
Se não fosse por mim, hoje eu não estaria aqui fazendo esse depoimento. Eu sempre estive ao meu lado. Mesmo contrariado, jamais me abandonei. Nos momentos mais significativos de toda minha vida eu estava presente: Sofri comigo, alegrei-me comigo, sonhei comigo e desiludi-me comigo.
São tantos anos, possivelmente encarnações, que caminhamos juntos, mim e eu, que não consigo imaginar um dia a gente se separar. Creia amigo, no dia que formos dessa para melhor, batermos as botas, abotoarmos o paletó de madeira, irei contigo sem discutir ou talvez, só um pouquinho.
Sei que meu carinho e compreensão por mim são incondicionais, às vezes penso que mim e eu somos até mais do que uma única pessoa. Eu perdôo quase tudo que eu me faço e eu, por minha vez, me compreendo e me consolo até nas minhas fraquezas mais sórdidas.
Mim e eu não temos segredos entre nós, nossa vida é um livro aberto e mal escrito, mas nós adoramos reler-me.
Não posso esquecer dos amigos que eu me apresentei. Quase todos gostam tanto de mim quanto de nós. Pensam que somos inseparáveis. É porque não conhecem nossas rusgas secretas. Tem dias que tenho vontade de me estrangular, de ir embora e nunca mais olhar na minha cara, mas nossa unidade é maior e eu perdôo a mim como se o erro fosse meu.
Naqueles dias em que estou pra baixo, depressivo, eu venho em meu socorro e não adianta nada. Quando, porém, eu estou alegre, expansivo, divertido, acabo pondo mais lenha na fogueira e, muitas vezes, passo do limite, o que causa em mim, que sou mais tímido do que eu, certo constrangimento. Que eu me perdoe, não faço para envergonhar-me.
Enfim, querido César, escrevo aqui esse humilde depoimento para dizer muito pouco sobre a enorme importância que eu tenho pra mim. Saiba que meu apreço por mim é tão grande que nem que mil anos se passem, nem que os deuses desçam do Olimpo, nem que o efeito estufa nos torre, jamais me deixarei sozinho.
Conte sempre comigo.
Me amo.
Meu amigo, Eu.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

NEM FREUD (nem sai de cima).


CAPÍTULO I – O LOUCO.
Quinta-feira, 07/02/2008 – 02H45min.

Li preocupado o e-mail de uma amiga doce e fatalista de manifestações bissextas.

"César querido.

Fiquei feliz em descobrir que você acabou com o jejum de textos novos no seu blog, mas muito preocupada com o conteúdo das últimas postagens.
Você passou o Natal e o Reveillon sozinho, depois fez pouco dos desígnios de Deus, recomendou que os narcisistas se jogassem numa fogueira, usou e abusou do foda-se isso, foda-se aquilo, irritou-se com as chuvas e com o Carnaval e ainda raspou totalmente os cabelos. [...] quero que saiba que compreendo suas angústias até porque já passei, como você bem se lembra, por períodos difíceis e, graças a ajuda profissional, venci meus demônios em poucos meses.[...]
Blá, etc. & tal, conte comigo.
Beijinhos na careca.
C."


CAPÍTULO II – O BONECO.
Quinta feira, 07/02/2008 – 21H50min.

Quando o Lula se preparava para disputar a reeleição encomendei do Edson, um artista catarinense, uma espécie de caricatura tridimensional do nosso ilustre re-presidenciável para decorar o República. Nada mais apropriado para uma pizzaria que tem a política como tema.
Desde que chegou, esse boneco foi surrado e quase esquartejado pelos clientes e ficou tão maltratado e maltrapilho que o escondemos no mezanino. Semana passada, decidi restaura-lo.
Um pouco de paciência e cola-quente farão uma verdadeira plástica em nosso mascote, pensei.
Levei o cabeçudo para casa.


CAPÍTULO III – O ANALISTA.
Domingo, 10/02/2008 – 02H25min.

Noite de Sábado perfeita na pizzaria. Casa cheia, só elogios.

Cheguei ao ninho trazendo pouco mais de meia garrafa de um cabernet argentino que abri lá pelas onze da noite e não consegui dar conta. Ao acender a luz quase enfartei com o "Lula" sentado ao computador. Tentei inutilmente me lembrar como é que ele foi parar lá. Até agora não me recordo quando e porque o movi do sofá.
Tomei um banho caprichado e fui conferir os e-mails, blog, Orkut, toda essa parafernália contemporânea que nos mantém em contato com o lado mais humano dos nossos amigos.
Ajeitei o boneco novamente no sofá e quando me servia de um pouco de vinho ouvi claramente uma voz masculina (não rouca), pausada e profunda me pedir:

- Para mim também, por favor...

- Orra meu, que susto! Quem, ou o que, é você?

-Meu nome é Sigmund. Sou psicanalista, na verdade, o pai de todos eles, e estou aqui para ajuda-lo.
-Graças à Deus! Achei que minha amiga estava certa. Confesso que por um instante pensei que era o presidente falando comigo.
-Diga aí Sig, o que o traz aqui assim dentro dessa, digamos, encarnação tão pitoresca?
- Foi o seu foco na correspondência da sua amiga que permitiu que eu incorporasse “nisso”.
- Você não está muito confortável nesse corpo, né?
- É que meu perfil é mais tucano e convém a um analista ficar em cima do muro.
- Compreendo.
- Essa fala é minha!
- Tudo bem, desculpe. Por onde começamos?
- Vou traçar seu perfil a partir de associações. Eu digo uma palavra e você diz a primeira coisa que lhe vier à cabeça. Ok?
- Certo. Conheço o método.
- Vinho.
- Sangue!
-
Não! Ainda não começou! Estou te pedindo que me sirva o vinho!
- Perdão! Aqui está.
- Vamos começar então: Razão.

- Esquece Sig. Isso não vai dar certo. Eu me sinto fazendo um teste de personalidade da revista Contigo. To tão constrangido que vou falsear as respostas. Que tal você me perguntar como tenho andado?
- Ok. Como está sua vida?
- SO-BRE-CAR-RE-GA-DA!
- Percebi certo peso em sua voz... Fale mais a respeito.
- O
peso foi intencional, sabichão. Por isso que eu “disse” sobrecarregada em maiúsculas e sílaba por sílaba. Não suporto mais solicitações. Elas vêm de todos os lados: funcionários, clientes, fornecedores... Minha vida profissional se tornou uma samsara estúpida de milhões de coisas minhas e alheias por fazer, resolver e cuidar e nada por finalizar. O problema não é matar um leão por dia, mas matar o mesmo leão todos os dias... Ô bicho chato!
-
Mude de vida, de ocupação.
- Essa é a intenção. Tenho o projeto da viagem, preciso de tempo para cuidar dele, mas o tal leão não deixa.
-
Foi esse leão que deixou você amargo nas últimas postagens?
- Não estava amargo. Só não estava e nem ando muito disposto a adular ninguém. Sorrir forçado dá rugas e escrever só amenidades é como usar botox na alma. Não sou tão compreensivo assim. Compreensão é o seu ofício, para mim é apenas uma virtude.
- Aquela estória de queimar os vaidosos... Qual seu problema com espelhos?

- Não tenho problema algum com o espelho. Talvez só um pouquinho. O que me perturba é essa ditadura do modelo de beleza, de moda. Estou mesmo é com o saco cheio dessa pasteurização estética. Repare nas mulheres com a mesma tinta no cabelo, adeptas da chapinha, dos óculos para-brisa-de-caminhão e por aí vai. O mais grave é que não ficam apenas na aparência, estão pasteurizando as conversas, as gírias, os trejeitos, o conteúdo. Isso, aposto, é resultado de vaidades mal resolvidas.
- Sua cabeça raspada é um protesto?

- Muito “pelo contrário.” Perdão pelo trocadilho.
È um exercício de liberdade. Comecei a trabalhar com o público aos 14 anos e não tive a oportunidade de deixar meus cabelos (quando os tinha em abundância) crescerem como fez minha geração. Amadureci almofadinha por conta da necessária imagem comercial. Hoje não preciso mais disso e posso arriscar layouts diferentes. Eu até gostaria de ter um crânio negróide, perfeitamente esférico, mas essa cabeça de turco também não é tão feia quanto eu imaginava antes de raspá-la. Uma amiga me chamou de corajoso, outra disse que fiquei sexy. Isso deve ser um empate.
- Será que a segunda não confundiu sexy com fálico? HÁHÁHÁHÁHÁ! Desculpe! Perco o cliente, mas não perco a piada!
Já que tocamos no assunto...
-Demorou hein Sig. Mas isso vai ficar para a próxima sessão. Mesmo porque, para falar de sexo, vou precisar de regressão.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

ESCREVO, bLOGO, EXISTO.

-O Paulinho me disse que você tem um blog...
Perguntou o conhecido de muitos anos e recentemente freqüentador cada vez mais assíduo da pizzaria. Ele vinha de uma farra carnavalesca vespertina e passou no República para comer alguma coisa na intenção amenizar os efeitos da bebida que (o) consumiu a tarde toda.
-É verdade. Há quase um ano que escrevo lá.
-Pra que?
-Como assim?
-Pra que você escreve? Qual objetivo? O que você pretende com isso?
-Não sei te responder agora. Talvez possa fazê-lo por escrito, no próprio blog.


Acordei irritado com a pergunta dele e, durante o dia, formulei centenas de respostas, algumas poucas vou colocar nesse post.

  • Uma das vantagens de se ter um blog é expressar de forma pública e permanente opiniões e posturas que numa conversa iriam gerar conflitos. Por exemplo: No caso desse cidadão que me inquiriu sobre a utilidade dos meus escritos, aproveito a oportunidade (na esperança de que um dia ele leia), para repudiar suas convicções anti-semitas. Para mim, todas as discriminações e preconceitos são deploráveis, exceto se o objeto for um preconceituoso consciente, culto e assumido, como é o caso desse sujeito. Uso ainda o presente texto para dar a ele mais dados sobre o meu “pedigree”: O sangue que corre em minhas veias tem componentes libaneses (razão do meu sobrenome) e espanhóis pelo lado do meu pai, porém, do lado materno, descobri não faz muitos anos, que o Marques não é lusitano como quase todo mundo pensa. É apenas um velho e comum sobrenome judeu-alemão que foi aportuguesado: Marx, como Carl Marx. Minha mãe, católica fervorosa, só soube disso meses antes de morrer e achou divertido. Sentiu-se livre do fardo de todas as piadas de portugueses que ouviu durante seus quase 80 anos.
  • Escrevo também para me orientar. Quando começo a perder o rumo, releio coisas que coloquei no papel (ou na internet) e me reencontro feliz em alguns momentos, depressivo em outros. Essa releitura (abomino essa palavra, mas não encontrei outra melhor) de mim me conduz de volta aos caminhos que quero escolher, ou me dão nova interpretação sobre o que estou vivendo. É muito mais barato e eficaz que fazer análise (que me perdoem Isaac, Jacó, Sarah, Abrão e todos “briminhos” judeus que vivem da psicanálise).
  • Ao escrever e publicar estou procurando por ecos, por vidas inteligentes “extra-meu-mundo”, numa imitação do projeto S.E.T.I. (Search for Extra-Terrestrial Intelligence). A arrogância aqui não é minha, apenas a peguei emprestada como exemplo: Não me julgo tão inteligente diante da humanidade quanto essa em relação ao universo.
  • Escrevo para abafar minha solidão. Não falo aqui da ausência de pessoas que tenho até demais ao meu redor. Refiro-me à solidão de quem não é ouvido atentamente, de quem se sente como um mero adversário de argumentos. Sinto-me só quando tento expor o que penso e encontro, ao invés de atenção e respeito, gladiadores das palavras dispostos até a negar a razão para me derrotar. Não sei ainda o motivo de atrair esses embates.
  • Escrevo porque amo a solidão.
  • Escrevo porque sou palavra. Meu filho é som e ritmo, , meu irmão, é forma e cor, eu sou palavra.
  • Escrevo numa medíocre tentativa de retribuição a todos que li e leio.
  • Publico para aplacar minha culpa de voyeur de blogs. Ao longo dos meses venho colecionando pessoas que não conheço e seus escritos. Coloquei os links de suas páginas em meus favoritos e fico aflito quando eles demoram em atualizar. Alguns escrevem como se bailassem, tal a harmonia que conseguem em seus textos, outros são rudes, econômicos, porém não menos viciantes. O que temos em comum, imagino, é essa coceira. Parece que tudo o que vivemos, cremos ou sentimos só se torna real e de valor se ganhar uma versão escrita. Segue aqui a indicação de alguns dos meus prediletos:

Ana Pessoa: http://ana.pessoa.blog.uol.com.br/index.html

Anna Basseto: http://annabasseto.blogspot.com/

Antonio Lino: http://dizquefuiporai.blogspot.com/

Carô: http://porcimadaminhasacada.blogspot.com/

Gio: http://quemundopequeno.blogspot.com/

Y.Y.: http://www.eunaoseitrigonometria.blogspot.com/

  • Escrevo por utopia. Quero fundar uma tribo. Todos de almas nuas, expostas escancaradas e devidamente documentadas. Se não sou mais como escrevi, assumo, não nego: Mudei.
  • Escrevo por compulsão. Como um cleptomaníaco me apodero de cenas, situações e palavras que nem sempre são minhas. Roubo dores, prazeres e estórias. Às vezes invento, aumento ou acrescento e, quando ponho o ponto final, não me sinto melhor ou pior, apenas completo, repleto nem mesmo sei de que.

Para encerrar, confesso: Gostaria de escrever bem, na verdade, gostaria de apenas escrever. Eu nunca escrevo, sempre reescrevo, inúmeras vezes e submeto o recém-nascido texto a tantas revisões que acaba perdendo a espontaneidade que gostaria de imprimir. Escrevo, reviso e reescrevo. Mal e doentiamente. Além disso, tenho um pé na dislexia e me surpreendo com um 5, Z ou 2 no lugar de um S ou ainda um 6 no lugar do G, ou ainda pior troco V por F e vice e versa. Cada parágrafo é um mini-parto e, já que revelei isso, cifro em minhas deficiências o derradeiro recado ao mala inspirador dessa postagem:

FAI ZE VODER!

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

BARBADA!

DESCONTO INCRÍVEL!

Super oferta encontrada na Etna no domingo de Carnaval que vai render um post que já tem até nome: Homens de Preto. Aguarde.




Perdão pela foto de celular.

Posted by Picasa

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Carnaval, na real.















Estou rabugento, por isso o texto vai assim mesmo, pior que o habitual.

Acho Carnaval de cidade grande um pé no saco.
O que acontece de especial nesses quatro dias numa metrópole como Campinas que não role em outra data qualquer? Ainda tem gente que se reprime o ano todo pra rasgar a fantasia, soltar a franga, chutar o pau da barraca e/ou sair do armário nessa época?
Duvido!
Não vejo o reinado de Momo como uma manifestação artística, cultural, ou o entrelaçamento de classes sociais e todas as outras bobagens que me ensinaram na escola para justificar a esbórnia nacional. Naquela época, putaria e porre com data marcada era motivo de orgulho para o valoroso povo brasileiro. Vendíamos para nós mesmos a imagem subjacente que nos outros 361 dias do ano éramos “gente aproveitável”.

As superproduções da indústria do samba são tão fundamentais para a sociedade brasileira quanto o Big Brother Brasil: Programa pra bobo assistir, votar, torcer e consumir toneladas de porcarias anunciadas pelos mascarados da vez. A mesma máscara negra que esconde teu rosto, mercado.

Tem mais:
Já disse Saint-Exupéry que “tudo na vida há que ter ritual”. Isso justificaria o Carnaval se ainda vivêssemos sob repressões sociais, sexuais, intelectuais. Fazer com entusiasmo artificial o que se faz todos os dias é como rir por obrigação.
O Carnaval não é mais contraponto de nada, só uma data para praticar de forma ainda mais irresponsável o livre arbítrio que para as gerações passadas era utopia:

-Eu sou aquele pierrot, que te abraçou, que te beijou meu amor...
-Qual dos 53, querido?

-Vou beijar-te agora, não me leve a mal, hoje é Carnaval...
-Não enrola. Beija logo que a fila anda...

-Oh, quanto riso, quanta alegria, mais de mil palhaços no salão...
-Cadê o Extase? Eu não tô nessa viagem, não.
°o0o°
Sabe o que me deixou assim tão ranzinza?
-Foi a camélia que caiu do galho, deu dois suspiros e depois morreu.
-Foda-se. Ninguém mais sabe o que é uma camélia.

Rosna...rosna...rosna!!! Rrrrrrrrrrrrrrr!
Posted by Picasa

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

CABEÇAS BRILHANTES.

Eles começaram a me abandonar quando eu tinha uns 25 anos. Não dei muita importância na época, pois, aparentemente, os genes que supunha carregar não determinavam um futuro “sem teto” para mim. Meus irmãos, todos mais velhos que eu, ainda hoje ostentam vastas cabeleiras, o que me faz imaginar uma das seguintes alternativas.

(___) Sou adotado.

(___) Sou o mais estressado de todos.

(_X_) Tenho mais testosterona que os três juntos.

Prefiro a última opção, é óbvio.

Há uns quatro anos, por sugestão da Josy, minha ex-cabeleireira, abandonei a tesoura e passei a ser tosquiado com uma máquina com pente # 4 que deixava meus cabelos com 12 mm. O tempo foi passando e acabei me tornando mais ousado: Pente # 3 com 9 mm, depois o # 2 com 6 mm e em abril do ano passado arrisquei o pente # 1 que deixa a penugem com apenas 3 mm.
Em outubro passado tentei marcar hora com a Josy durante duas semanas. O salão andava abarrotado de clientes e parece que, depois que adotei a máquina de tosquiar, fui relegado ao nível de freguês de segunda categoria. Faz sentido, uma cabeleireira cuida de cabelos e esses eu quase já não os tinha mais. Foi assim que comprei minha própria maquininha pelo equivalente a duas visitas ao salão da Josy.
Descobri que é muito fácil usa-la e o melhor é que sempre está disponível, não tenho que conciliar meu tempo com uma vaga na disputadíssima agenda da cabeleireira.

Em dezembro último, deparei com uma foto da estonteante Natalie Portman careca. Sempre achei super-atraentes as mulheres de cabelo muito curto e essa foto me impressionou tanto que acabei virando um colecionador de escalpos. Comecei com as mulheres, depois passei aos galãs, mais tarde adquiri algumas carecas santas e outras que nos fazem felizes. Fucei tanto que acabei descobrindo no site Worth1000.com até aquelas que não existem, mas gostaríamos de ver. Mesmo grande, minha coleção estava ficando monótona, então, domingo passado, tirei o pente # 1 do tosquiador e entrei para a confraria das cabeças brilhantes.

AS BELAS:Tudo bem, a Britney não merecia estar aqui.

FAMOSOS & CHARMOSOS:

OS CARECAS DO BEM:

CARECAS QUE NOS FAZEM FELIZES:

CARECAS QUE GOSTARÍAMOS DE VER:

e EU:
















Com a Hebe ao fundo em 29/01/2008 numa pose para a revista Viagem & Turismo de fevereiro.
Parece que a matéria vai sair sem foto, deve ser preconceito do editor (cabeludo).

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Outras cores.

Outro dia, passando em frente a casa-teatro-atelier (um dia explico) do Sebastian e da Natasha, aqui em Joaquim Egídio, vi essas caixinhas de madeira multi-coloridas e me lembrei de uma conversa que tive com um cliente da pizzaria (elevado à categoria de amigo), o Mark.
Mr. Mark é norte-americano recém chegado ao Brasil e o "bam-bam-bam" para a América Latina de uma multinacional de tintas automotivas.
Ele se disse surpreso com o nosso gosto pela "falta de cores" nos automóveis: -Vocês, brasileiros, só compram carros de cor preta, branca ou prata! Onde estão o calor latino e as referências tropicais?
Ele tem toda razão. A esmagadora maioria dos carros produzidos no Brasil no século XXI ostentam essa falta de cor.
Hipnotizado com o colorido das caixinhas da Natasha, imaginei que os congestinamentos seriam mais suportáveis se não levassemos nossos carros tão a sério.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

SAMPA


"Ademito" falta de assunto. Mas esse recurso de postar as fotos direto do Picasa é ótimo.

Borboleta de corrida.


# 08

Por falta de um caminhão...


Joguei nessa placa durante um mês!

Dica de Restaurante

Atenção para a última frase da placa!
Fica aqui pertinho de casa: Km 5,5 da estrada que liga Joaquim Egídio ao Pico das Cabras.
A comida é excelente e o serviço... digamos... excêntrico.
Em primeiro plano, a Judith, minha bike quase debutante.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

CASAQUISTÃO É AQUI.

Assisti hoje Borat. Pra variar, depois de todo mundo.
Sentimentos conflitantes: Ri muito e acabei meio deprê.
Risos por motivos óbvios e um pé na tristeza por conhecer dezenas de migrantes norte-brazucas com sonhos, deslumbramentos e inadequações semelhantes (sobre)vivendo aqui, no “sul maravilha”. Tristes também são os valores dos tidos como civilizados tanto no filme como na vida real.

Seria mais engraçado se fosse total ficção.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

FELIZES ESCOLHAS NOVAS

Adeus 2007. Viva 2008, o ano do Rato no Horóscopo Chinês, de Marte na Astrologia, de Ogum no Candomblé.
Por absoluta falta do que fazer, andei espiando as previsões e concluí que, como não há acordo entre os profetas de plantão, meu 2008 vai ser ótimo, mas só se eu der uma chance.
Desde o Natal que comecei o aquecimento de meus propósitos e desejos para o Ano Novo. Dei um trato na casa, raspei os cabelos (ou quase), coloquei a agenda em ordem, estou em abstinência de álcool e carne e, por conta dessa última escolha, vou pela primeira vez na vida, ficar só num Reveillon.
Recebi convites tentadores para festas em casas de amigos, baladas e viagens. Declinei. Seria muito difícil, estando abstinente, me relacionar de forma prazerosa com os convivas movidos a champagne, vinho, cerveja e outras delícias. Essa mistura costuma culminar em chateação recíproca. Ébrios provocam os sóbrios que abandonam a sobriedade ou a festa. Já visitei os dois lados de situações assim.
Ainda, de última hora, tentei achar algum tipo de retiro budista, ou um Satisanga (1), ou ainda uma turma de naturebas dispostos a me receber. Não encontrei nada, até os poucos naturebas que conheço estão em excursão na Índia. Foi então que me lembrei que tinha uma escolha, aliás, várias, sobre as quais falarei mais adiante.
Escolhi ficar em casa, preparar uma ceia especial para a Rita (minha cadela adoecida) que não concordou com minha opção vegetariana e vai degustar uma polenta com carne moída e legumes.
Para mim há uma lasanha de espinafre com molho branco, no copo chá verde gelado com menta, na alma, uma promessa de paz. No momento isso me basta e me inspira a anotar meus desejos e resoluções para 2008. São eles:

ALGUNS DESEJOS: (selecionados entre 114)

  • Que a Rita (a cadela) recupere a saúde.
  • Que minha vizinha se torne mais equilibrada e pare de torturar psicologicamente seu filhinho de 3 anos.
  • Que o cachorro dessa mesma vizinha se torne definitivamente afônico.
  • Que meu filho identifique mais e mais momentos felizes.
  • Que meus clientes sejam mais pacientes.
  • Que meus fornecedores sejam mais pacientes.
  • Que meus credores sejam mais pacientes.
  • Que meus devedores se tornem prósperos.
  • Que meus funcionários sintam que estão construindo alguma coisa, não apenas trabalhando pelo salário.
  • Que o sistema de impostos se torne mais leve, claro, simples e justo.
  • Que eu feche os contratos de patrocínio da viagem.
  • Que eu não decepcione aqueles que me amam.
  • Que eu surpreenda positivamente aqueles que me odeiam.
  • Que eu cative novos amigos.
  • Que eu não perca nenhum dos que já tenho.
  • Que eu consiga manter minhas resoluções de Ano Novo.

RESOLUÇÕES:

· Em 2008 eu “escolho escolher”. Só isso!

Escolho escolher meu humor, minhas reações diante das alegrias e atribulações. Escolher criteriosamente se me levanto ou continuo na cama, se como um bife ou uma salada, se tomo cerveja ou suco de amoras, se me estresso ou fico zen. Vou escolher assumir o controle sobre cada ato ou pensamento, não me deixar levar pelo automatismo de atitudes e avalanche de emoções. Quero escolher sempre o Bem o Bom e o Belo, em qualquer situação Por exemplo: Quando encontro ou penso em uma pessoa que me irrita (são várias, a vizinha é uma delas), não vou me entregar aos sentimentos "não adestrados" de desprezo, rancor ou impaciência que possam aflorar, quero escolher sentimentos mais nobres como a compaixão. Isso fará mais bem a mim do que aos irritantes em questão, se bem que eles também se beneficiarão e podem até querer passar mais tempo próximos a mim. Isso pode ser uma cilada, mas faz parte do jogo cujas regras eu posso simplesmente "escolher".
Parece simples, porém fazer todas as escolhas, grandes ou insignificantes, de forma consciente o tempo todo é o maior desafio que já me propus. Essa postura até poderia ser chamada de "Negligência Zero ou de Vigilância das Atitudes e Pensamentos" mas não quero dar esse peso de obrigação ou controle, pois dessa forma não seria escolha.
Ta achando que é mole? Experimente por um dia!

FELIZES ESCOLHAS NOVAS!


(1) SATSANGA. Festa ou festival da cultura indiana mais vistos no Brasil dentro das comunidades Yogue e Hare-Krishna. Os participantes levam flores, frutas e pratos vegetarianos, entoam mantras, acendem velas e queimam insensos. Trata-se, resumidamente de uma celebração pela vida. Parece meio careta para quem não conhece, mas é ótimo.

segunda-feira, 18 de junho de 2007

PELO AQUECIMENTO PESSOAL.


* foto de Marta Ferreira em www.olhares.com
Não consigo evitar.
Todo ano a mesma história se repete: Dias mais curtos e mais frios me fazem meio depressivo. Vou me encolhendo, baixando a atividade e a imunidade até que pimba: Gripe!
Agora já estou me recuperando. Restou apenas uma tosse que vai me anunciar por mais umas duas semanas. Esse ano até que foi light, em 2006 fiquei uns dez dias de molho, o que foi até bom. Repensei minha vida e tomei decisões que vinha postergando, sem saber, há anos.
Mas essas elucubrações íntimas não são assunto para hoje. Quero ponderar sobre uma legião de adoradores do Inverno, gente que ama o frio. Não consigo entende-los, pelo menos dentro da estrutura de conforto que minha vida tropical oferece. Moro numa casinha super-confortável, mas não possui calefação, as noites frias tem que ser enfrentadas sob as cobertas mesmo, igualmente ao meu meio carro (metade dele é de minha ex-mulher) é uma pick-up Strada básica, sem ar-condicionado o que nos obriga, nos dias frios, a manter as janelas fechadas e, de tempos em tempos, passar aquela maldita flanelinha no parabrisas, muitas vezes provocando tchauzinhos de uns desligados ou gozadores. Hebe, a Kombi, ainda continua refém do funileiro. Sei que ela possui um sistema de calefação que coloca dentro do carro o ar aquecido pelo motor, o que não é exatamente saudável e já gerou algumas lendas urbanas sobre famílias (nipônicas) inteiras mortas por asfixia. Deve ser exagero, não tive possibilidade de testar. Acho que o funileiro se preocupa demais com a minha saúde.
Voltando a esse povo que diz adorar o frio, acho que são mentirosos ou masoquistas enrustidos. Vou citar algumas das coisas que me irritam profundamente no inverno:

Dormir só: Uma roupa de cama caríssima em puro algodão se transforma num martírio nas noites de frio. Depois que você consegue aquecer o ninho é preciso muita coragem pra mudar de posição. Durmo encolhido, sufocado por uma pilha de cobertores, mantas e edredons, acordo dolorido, desanimado, com medo de enfrentar o mundo gelado além das cobertas. Tem ainda a decadência estética: Se no verão durmo quase nu, agora, nessas noites frias me peguei usando até umas pantufas de cachorrinho. (De onde mesmo que veio isso?) Olhar no espelho de manhã usando uma calça de moletom surrada, um suéter velho e pantufas azuis de cachorrinho arrasam com a auto-estima de qualquer um.

Insônia: Tenho, eventualmente, passado por isso. No Inverno fico imobilizado, tentando induzir sonhos, relaxar o corpo, controlar a respiração, esperando que Morfeu me acolha. Nada funciona e fico até o amanhecer maldizendo a temperatura que me impede de, como nas noites quentes, sair pelado pela casa, ler um livro ou uma revista, tomar Coca-Light, acender um cigarro, deitar no tapete ouvindo jazz, navegar na internet e encontrar outros insones. Ou seja, insônia é para climas quentes, no frio, bom mesmo é dormir, para quem consegue ou é urso.

Dormir acompanhado: Tenho uma vaga lembrança disso. Me recordo que a gente sofre um bocado com pés e mãos alheios gelados, mas o que mais me revolta é o bumbum antártico! Aparentemente, mulheres de nádegas esféricas, grandes e bonitas foram feitas para viver em zonas tropicais, na Africa, por exemplo. Acho que há uma deficiência de irrigação sangüínea nesses lindos derrières avantajados que me fazem sentir, em noites frias, como se encochasse uma estatua de mármore. Ainda assim é muito melhor que sozinho de pantufas, moletom e suéter. Vale lembrar que namorada e esses trajes são incompatíveis. Nem pensar em tirar essa cafonice do armário se tiver companhia para dormir.

Banheiro: Já que estamos falando em bundas, tem coisa pior do que sentar no vaso sanitário numa manhã gelada? Tem sim! No bidê! E os banhos então? Chuveiro ligado há meia hora, tudo embaçado, estratégia para entrar no banho, outra pra sair da água e finalmente abraçar aquela toalha que parece ter dormido no freezer. Fazer a barba, escovar os dentes, lavar o rosto – tudo é penoso. O banho que no verão é um prazer, torna-se, no inverno, uma terrível obrigação.

Cozinha: O apetite aumenta, tudo bem! Mas a comida esfria muito mais rápido do que consigo come-la. Os sucos e refrigerantes são evitados, tenho o consolo dos vinhos, traiçoeiros, que carregam consigo as lembranças ébrias de uma noite de verão. E o pior de tudo: Sempre há mais louça pra lavar, com água fria.

Sapatos: Os mais confortáveis e amaciados são os que uso no verão. Aqueles pesados e quentes, normalmente os encontro ressecados e embolorados sempre que preciso deles nos primeiros dias frios.

Roupas que uso: Pesadas e mais austeras do que as do calor, as roupas de frio sempre me trazem uma certa nostalgia, parecem contar histórias do inverno passado. Deve ser por conta do leve odor de mofo que elas trazem.

Roupas que elas usam: Se escondem são adequadas e sem graça, se mostram são inadequadas e fim de papo. Barriguinha (mesmo que bonitinha) de fora com menos de 20ºC é atentado ao bom senso e ao bom gosto.

Lavar Roupas: Antes de tudo, no inverno há a dúvida, no verão a evidência! Não sei se acontece com todo mundo, mas eu fico com dor de consciência quando coloco as roupas na lavadora durante o inverno. Usei essa camiseta uma vez, o colarinho está limpo, não tem cheirinho, lavar por que? Por via das dúvidas, lavo. Já no verão, as roupas depositadas no cesto do banheiro ficam sussurrando odorificamente: Me lava, me lava, me lava!

Jardim: Tudo seco. Grama cheia de folhas, formigueiros pipocando, não temos flores nem beija-flores. Tudo que se mexe no jardim durante o verão corre pra dentro de nossa casa no inverno. Nada melhor para estragar um dia do que pisar (com as pantufas) numa centopéia friorenta que veio recolher seus cem pezinhos gelados bem embaixo da sua cama. - CRECK! - ARGH!

Trabalho: Todo mundo de saco-cheio: Revoltados por terem que sair de casa, revoltados por não estarem em casa e mais revoltados ainda por terem que voltar pra casa nesse puta frio. No meu caso, uma pizzaria, ficamos, sempre que possível, reunidos em torno do forno, até que a clientela nos tire do conforto para atender mesas e telefones. Motoqueiros com nariz escorrendo, garçons com os nojentos suéteres velhos sob o uniforme, porteiro gripado, telefonista fanha. Um horror.

Por essas e por outras que não me lembro mais, já que estou maluco de acido acetilsalicílico, paracetamol e cheirado de Vick-VapoRube é que pergunto: Qual é a graça do inverno?