quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Borboleta de corrida.


# 08

Por falta de um caminhão...


Joguei nessa placa durante um mês!

Dica de Restaurante

Atenção para a última frase da placa!
Fica aqui pertinho de casa: Km 5,5 da estrada que liga Joaquim Egídio ao Pico das Cabras.
A comida é excelente e o serviço... digamos... excêntrico.
Em primeiro plano, a Judith, minha bike quase debutante.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

CASAQUISTÃO É AQUI.

Assisti hoje Borat. Pra variar, depois de todo mundo.
Sentimentos conflitantes: Ri muito e acabei meio deprê.
Risos por motivos óbvios e um pé na tristeza por conhecer dezenas de migrantes norte-brazucas com sonhos, deslumbramentos e inadequações semelhantes (sobre)vivendo aqui, no “sul maravilha”. Tristes também são os valores dos tidos como civilizados tanto no filme como na vida real.

Seria mais engraçado se fosse total ficção.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

OS DESEJOS, O DESMAIO E O DIVINO GOZADOR.

Foto de Graça Loureiro em Olhares.com

ADVERTÊNCIA: Esse post, para fazer mais sentido deve, preferencialmente, ser lido depois de FELIZES ESCOLHAS NOVAS, a postagem imediatamente anterior a essa.

°oOºO0°

Bem que eu não queria sair de casa hoje, mas tinha que ir aos bancos, dentista e providenciar alguma coisa para o jantar.
Como o tempo era escasso para um almoço, meu filho e eu fomos comer um sanduíche num bar bem bacana no centrinho de Sousas, em frente ao Bradesco. Quando pus na boca o último pedaço do sanduba lacto-vegetariano, vejo uma mão estendendo-se em minha direção. Segui com os olhos o braço que a sustentava e encontrei sobre os ombros o enorme sorriso de um dos caras (na minha visão pecadora de antes da virada do ano) mais chatos e irritantes que, vez ou outra, cruzam o meu caminho, e o pior é que ele me adora!

- César, meu grande amigo! Grande César. Ave César! Chacoalhava minha mão lambuzada de tomate seco.
- Como vai? Perguntei sem demonstrar nenhum entusiasmo, nem interesse.

Foi o suficiente para ele, carregando uma salsicha empanada e uma Coca-Cola, puxar uma cadeira e sentar-se à nossa mesa. Já ia me preparando para levantar quando me lembrei do meu propósito de ESCOLHER minhas emoções e reações (Vide postagem anterior).
Só pode ser brincadeira "da turma lá de cima", pra me testar, pensei.
Recompus-me emocionalmente para “carregar o mala” e driblar o meu impulso de me livrar logo dele. Deu certo! Em poucos segundos consegui vê-lo de forma diferente, no momento em que ele iniciou seu esporte predileto: Dizer de cor a data de meu aniversário, da minha ex-mulher, de todos os meus primos e mais um monte de gente conhecida. Falou com orgulho que sabe de cabeça o “birthday” de 1.010 pessoas e que faz cerca de 7 telefonemas de congratulações todos os dias. Isso é verdade! Há alguns anos, numa manhã deFinados, o telefone tocou em casa às 07h00min em ponto. Quem me conhece sabe que por questões do trabalho noturno e também do ritimo de meu relógio biológico nunca se deve ligar para mim antes das 11h00min “da minha madrugada”.

Do outro lado da linha escuto uma voz masculina cantando Parabéns pra Você!

- Quem é que está falando? Berrei irritado.
- Adivinha.... He, he, he, hiiiiiiii!
- Não pode ser amigo me ligando nessa hora!
- É o Gustavo Freitas Barbado
(nome fictício, claro). Queria ser o primeiro a cumprimentá-lo!
-E você conseguiu Gustavo. Quem foi o FDP que te deu meu telefone? Eu não autorizo a divulgação do meu número pela Telefônica!
-Tenho minhas fontes, amigo! He, he, he, hiiiiiiii!

Deixei-o falando sozinho, joguei o telefone sobre o sofá e voltei para a cama, revoltado!

Hoje porém, graças a minha ESCOLHA de não me irritar, acabei até me divertindo, trocando olhares arregalados com meu filho a cada vez que ele soltava uma de suas pérolas. Foi com pesar que me despedi dele para ir à dentista.

Com a boca aberta e anestesiada, sem mais nada pra pensar, passei a enxergá-lo como um personagem quase que folclórico, não faz mal a ninguém, só é bastante inconveniente, e todas suas intervenções, mesmo que desastradas visam o bem de suas “vítimas”. Fiquei feliz com minha atitude e acabei por inventar um sutil sorriso com a boca escancarada que fez a dentista perguntar se eu estava sentido dor.
Saí da tortura semanal com o beiço mole, mas de bem com a vida e resolvi arriscar buscar um quadro com três Buddhas que tinha visto no Iguatemi dias atrás. Ficará ótimo sobre a cabeceira da cama, pensei.
Dei sorte. O quadro ainda estava lá e o preço baixou vinte por cento. Liquidação de Natal.
Para evitar qualquer outro impulso consumista, peguei o embrulho desajeitado e segui direto para o estacionamento. Foi quando não resisti a um café na Casa do Pão de Queijo, já quase na saída do shopping.
À minha frente, na fila do caixa, havia uma moça, típica freqüentadora de shopping, uns 35 anos, bem vestida, bem penteada, com bolsa de grife e segurando uma sacola da Saraiva. Percebi que dentro tinham uns três livros...
Enquanto ela pagava por um suco e um salgado, fiquei comentando comigo mesmo: Hum.. Bonita... Comprando livros... Talvez não seja tão “patricinha” como aparenta...
Depois de pagar, ela se afastou para a esquerda e sentou-se num daqueles bancos altos. Era a minha vez de ir ao caixa e enquanto a atendente fazia o troco, olhei de relance o rosto da tal moça, agora ao meu lado. Ela também estava olhando pra mim. Vesga, muito vesga, assustadoramente vesga! Mas tão vesga que tive que olhar de novo. Mas seus olhos, dessa vez, estavam normais.
Enquanto eu tentava descobrir que tipo de pegadinha estava sendo vítima, ela deu uma balançada pra trás, como se jogasse os cabelos e quando voltou meteu a testa violentamente no balcão. Larguei o quadro e minha bolsa e consegui ampara-la antes que chegasse ao chão.

- A mulher desmaiou! Gritou alguém.
- Ela sempre tem isso? Perguntou uma senhora.
- Sei lá! Eu não a conheço!
-Como é que você soube que ela ia cair?
-Ela piscou pra mim!
Falei irritado.
-Será que alguém pode chamar a segurança? Berrei.
-A moça do café já foi. Falou uma outra mulher.
Apareceu uma jovem vestida de mico de realejo: A segurança do shopping.
-O que ela tem?
-Não sei moça. Não sou médico. Só sei que ela precisa de ajuda. Tem um ambulatório aqui, né?
-Tem sim, vou chamar pelo rádio.

Enquanto o socorro não vinha, ficamos nós dois lá no chão do café minúsculo, eu sentado sobre os calcanhares, com a cabeça dela recostada no meu peito, o braço esquerdo apoiando suas costas e com a mão direita acariciava seu rosto e tirava os cabelos de sua boca. De tempos em tempos ela ameaçava acordar, olhava pra mim, ficava vesga de novo e apagava. Começou a suar abundantemente, um suor gelado que chegou a molhar minha camiseta.
Até a chegada do socorro, acho que não se passaram nem cinco minutos, mas pareceram horas.
Enquanto as pessoas em volta (semi-histéricas) levantavam hipóteses acerca de ressaca de Reveillon, gravidez, pressão baixa e os cambau, eu cochichava no ouvido dela: - Fica tranqüila, já vai passar, ta tudo bem... Na verdade estava falando para nós dois.
Chegou um pessoal vestido de branco com uma cadeira de rodas e arrebatou-a de meus braços. A moça vestida de mico os seguiu levando a bolsa chique e a sacola de livros.
Levantei-me, meio atordoado. Uma alma boa tinha recolhido e guardado o quadro, minha pochete e a carteira que ficara sobre o caixa.
Tive tempo de ver a cabecinha dela balançando quando a cadeira de rodas fez a curva no corredor.
Finalmente pedi meu café e o sorvi com dificuldade por conta dos lábios ainda adormecidos da anestesia. Repassei calmamente, diante da xícara, as últimas horas do dia. Tive um arrepio quando fiz a ligação do derradeiro episódio com um quase desejo para 2008 que nem cheguei a colocar no papel, pois era incompatível com outro projeto: A viagem solitária de setembro.
É que quando fazia a lista de desejos, na véspera de Ano Novo, pensei por um milésimo de segundo: Também seria bom ter alguém para abraçar...

É preciso muita cautela com o mais fugaz dos desejos. O Divino está sempre nos espreitando, aguardando uma vacilada nossa para exercitar seu estranho senso de humor.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

FELIZES ESCOLHAS NOVAS

Adeus 2007. Viva 2008, o ano do Rato no Horóscopo Chinês, de Marte na Astrologia, de Ogum no Candomblé.
Por absoluta falta do que fazer, andei espiando as previsões e concluí que, como não há acordo entre os profetas de plantão, meu 2008 vai ser ótimo, mas só se eu der uma chance.
Desde o Natal que comecei o aquecimento de meus propósitos e desejos para o Ano Novo. Dei um trato na casa, raspei os cabelos (ou quase), coloquei a agenda em ordem, estou em abstinência de álcool e carne e, por conta dessa última escolha, vou pela primeira vez na vida, ficar só num Reveillon.
Recebi convites tentadores para festas em casas de amigos, baladas e viagens. Declinei. Seria muito difícil, estando abstinente, me relacionar de forma prazerosa com os convivas movidos a champagne, vinho, cerveja e outras delícias. Essa mistura costuma culminar em chateação recíproca. Ébrios provocam os sóbrios que abandonam a sobriedade ou a festa. Já visitei os dois lados de situações assim.
Ainda, de última hora, tentei achar algum tipo de retiro budista, ou um Satisanga (1), ou ainda uma turma de naturebas dispostos a me receber. Não encontrei nada, até os poucos naturebas que conheço estão em excursão na Índia. Foi então que me lembrei que tinha uma escolha, aliás, várias, sobre as quais falarei mais adiante.
Escolhi ficar em casa, preparar uma ceia especial para a Rita (minha cadela adoecida) que não concordou com minha opção vegetariana e vai degustar uma polenta com carne moída e legumes.
Para mim há uma lasanha de espinafre com molho branco, no copo chá verde gelado com menta, na alma, uma promessa de paz. No momento isso me basta e me inspira a anotar meus desejos e resoluções para 2008. São eles:

ALGUNS DESEJOS: (selecionados entre 114)

  • Que a Rita (a cadela) recupere a saúde.
  • Que minha vizinha se torne mais equilibrada e pare de torturar psicologicamente seu filhinho de 3 anos.
  • Que o cachorro dessa mesma vizinha se torne definitivamente afônico.
  • Que meu filho identifique mais e mais momentos felizes.
  • Que meus clientes sejam mais pacientes.
  • Que meus fornecedores sejam mais pacientes.
  • Que meus credores sejam mais pacientes.
  • Que meus devedores se tornem prósperos.
  • Que meus funcionários sintam que estão construindo alguma coisa, não apenas trabalhando pelo salário.
  • Que o sistema de impostos se torne mais leve, claro, simples e justo.
  • Que eu feche os contratos de patrocínio da viagem.
  • Que eu não decepcione aqueles que me amam.
  • Que eu surpreenda positivamente aqueles que me odeiam.
  • Que eu cative novos amigos.
  • Que eu não perca nenhum dos que já tenho.
  • Que eu consiga manter minhas resoluções de Ano Novo.

RESOLUÇÕES:

· Em 2008 eu “escolho escolher”. Só isso!

Escolho escolher meu humor, minhas reações diante das alegrias e atribulações. Escolher criteriosamente se me levanto ou continuo na cama, se como um bife ou uma salada, se tomo cerveja ou suco de amoras, se me estresso ou fico zen. Vou escolher assumir o controle sobre cada ato ou pensamento, não me deixar levar pelo automatismo de atitudes e avalanche de emoções. Quero escolher sempre o Bem o Bom e o Belo, em qualquer situação Por exemplo: Quando encontro ou penso em uma pessoa que me irrita (são várias, a vizinha é uma delas), não vou me entregar aos sentimentos "não adestrados" de desprezo, rancor ou impaciência que possam aflorar, quero escolher sentimentos mais nobres como a compaixão. Isso fará mais bem a mim do que aos irritantes em questão, se bem que eles também se beneficiarão e podem até querer passar mais tempo próximos a mim. Isso pode ser uma cilada, mas faz parte do jogo cujas regras eu posso simplesmente "escolher".
Parece simples, porém fazer todas as escolhas, grandes ou insignificantes, de forma consciente o tempo todo é o maior desafio que já me propus. Essa postura até poderia ser chamada de "Negligência Zero ou de Vigilância das Atitudes e Pensamentos" mas não quero dar esse peso de obrigação ou controle, pois dessa forma não seria escolha.
Ta achando que é mole? Experimente por um dia!

FELIZES ESCOLHAS NOVAS!


(1) SATSANGA. Festa ou festival da cultura indiana mais vistos no Brasil dentro das comunidades Yogue e Hare-Krishna. Os participantes levam flores, frutas e pratos vegetarianos, entoam mantras, acendem velas e queimam insensos. Trata-se, resumidamente de uma celebração pela vida. Parece meio careta para quem não conhece, mas é ótimo.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Não gosto muito de Natais.


Daqui há algumas horas, fogos vão espocar, cachorros ganir, crianças vão gritar ao receberem seus presentes, casais trocarão beijinhos, amigos se abraçarão. Brindes, comemorações, talvez algumas tímidas lágrimas pelas ausências que sempre se fazem presentes nessas datas. Poucas lágrimas pelos que não estão, pelos que jamais voltarão, pelos que perdemos, pelos que deixamos de conquistar.
Para mim, há muitos anos essa é uma noite especialmente triste e cansativa. Quando vivia numa estrutura familiar tradicional chegava aos 24 de Dezembro absolutamente exausto por conta dos presentes, dos preparativos, das expectativas. Sempre preocupado por ter esquecido de alguém, por ter detonado os cartões de crédito, de intimamente saber que de novo havia caído no “conto do Natal”. Depois das comemorações eu costumava ouvir uma voz metálica repetindo na minha cabeça: “Essa ilusão vai se auto-destruir em 48 horas”.
Acho lindo todo o ritual de preparar a casa, enfeitar a árvore, chamar os amigos e dividir mesa e copos fartos, mas o que sempre me deixou uma sensação de vazio é que depois disso não há transformação. Os brinquedos logo serão esquecidos, alguns dos presentes do tipo “nada a ver comigo” seremos obrigados a usar, as sobras da fartura vão habitar nossas geladeiras por mais alguns dias e inevitavelmente, quando os bancos abrirem, a folga terminar, retomaremos nossa rotina com o peso adicional dos exageros à mesa e no bolso.
Gosto muito mais da passagem de ano. Ela costuma me trazer sensações de “nova chance” e de dever cumprido (mesmo que isso signifique apenas sobreviver). As comemorações permitem um menor número de posturas sociais e uma oportunidade de compromisso íntimo, aquelas famosas intenções de ano novo.
A virada do ano ainda não carrega aquela culpa do bebê crucificado. Essa imagem me incomoda desde criança. Pensava: Como é que podemos comemorar o nascimento de alguém que matamos anos depois? –Culpa católica, evidentemente.
Esse ano estou só em minha casinha, acompanhado apenas de umas garrafas de espumante brut e umas bobagens para beliscar. Trata-se de um retiro voluntário que aproveito para postar alguma coisa no blog, colocar uns papéis em ordem e quem sabe, teclar com amigos que há muito não vejo.

Realmente não gosto muito de Natais, mas por via das dúvidas, vou deixar a porta aberta, as luzes acesas e o computador on-line, ainda existe a possibilidade que um milagre nessa noite me faça mudar de opinião.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

KOMBINAÇÕES NA TV

Queridos(as) torcedores(as)

Por absoluta falta de tempo, só tenho postado o que falam (bem) de mim.
Fui entrevistado ontem pelo Gerson de Souza para falar da viagem e o programa vai ao ar na data e horário aí acima.
Além da Hebe e eu o programa vai mostrar o restaurante Nakombi, uma divertida RadioKombi e ainda um cidadão que mora dentro de uma.
Vou tentar gravar para posteriormente colocar no Youtube com um link aqui.
Se algum dos meus fãs - (RÁRÁRÁRÁRÁ) - tiver uma placa de captura de vídeo e prática nisso, ficarei imensamente grato, a ponto de pagar uma pizza lá no República.
Abraços a todos!
César Cury & Hebe Wagen

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

JORNAL CORREIO POPULAR 23/09/2007

Para quem não é de Campinas, aí vai a entrevista que dei para o reporter João Nunes e foi publicada em página inteira exatamente um ano antes de minha partida. Não posso deixar de registrar aqui a fidelidade e sensibilidade desse profissional que deu um enorme impulso ao projeto.
Valeu João!

Um ano de Kombi pela América do Sul

Campineiro de 45 anos investe em antigo sonho e recupera veículo da década de 60 para uma viagem pelo continente

João Nunes
DA AGÊNCIA ANHANGÜERA
nunes@rac.com.br

Há mais de 20 anos, o campineiro César Cury imaginou viajar pelo mundo, num veleiro, ao lado da mulher e do filho. Chegou até a fazer cursos na área. O tempo passou, o veleiro ficou para trás e ele transferiu o projeto para um ônibus, mas esse tampouco saiu do papel. Em vez disso, viu o casamento terminar, e o sonho da viagem desmoronar. Aos 45 anos e separado, ele brinca dizendo que poderia ter comprado um carro esporte, mas inverteu a expectativa e, “por questão de estilo”, adquiriu uma Kombi. E como não teria mais a companhia da mulher e do filho, decidiu colocar o pé na estrada sozinho, numa viagem pela América do Sul. De Kombi.

Mas não é uma Kombi qualquer, mas fabricada em 1968, ou seja, que irá completar 40 anos no ano que vem, e adquirida num mercado livre na internet ao preço de R$ 2.999,00. Cury, sujeito aparentemente sério e tranqüilo, de gestos pausados e voz clara e firme, decidiu batizar o veículo de Hebe, por razões óbvias, “pois é perua, coroa e está enxuta”. E garante que tentará apresentar a “Hebe” para a Hebe. A Camargo. “Acho que ela vai gostar, porque é uma homenagem carinhosa e toda perua se orgulha de ser perua.”

O projeto fez Cury revisitar o sonho de mais de 20 anos, porque sempre acreditou que a aventura está no inconsciente coletivo. Mas sua aventura está só começando. Neste momento, o veículo passa por processo de restauração, de forma a torná-la o mais próximo possível do original. E, obedecendo questões meteorológicas, vai partir de Campinas daqui a um ano — 22 de setembro de 2008 —, saindo de Bertioga, Litoral paulista, em um trajeto que durará 365 dias.

Com o sugestivo nome de Kombinações — Kombi com nações —, o projeto prevê, inicialmente, como subproduto, um livro com as histórias da Hebe. Quando a conheceu, Cury, que hoje é empresário proprietário de uma pizzaria em Sousas, o veículo era azul escuro. Não gostou da cor, até porque a restauração exigia um azul claro, a cor da Kombi mexicana do ano de 1964. Ao iniciar o processo de limpeza, encontrou por baixo do azul escuro a cor preta com detalhes em dourado. Ocorre que Hebe tinha sido, por longo período, um carro funerário em Monte Alegre do Sul (a 65 quilômetros de Campinas).

Essa história estará no livro que ele pretende escrever enquanto viajar. “Vou conversar com ela para que me conte suas histórias”, afirma Cury, com visível humor. São histórias reais, mas haverá também episódios fictícios e baseados em comentários da viagem, filosofias e pensamentos. “Conheço várias histórias dela. Por exemplo, depois de carro funerário, ela serviu a um grupo de pagode. E, agora, passa por reforma em grande estilo, como se começasse a vida aos 40, e ela vai dizer como se sente na nova fase.”

Um segundo livro será a narração da viagem em si, mas isso ao término do projeto. Enquanto navega pelas estradas latino-americanas, Cury alimentará o blog criado especialmente para o projeto (http://kombinaestrada.blogspot.com) e até apostará numa veia jornalística, de narrativas dos acontecimentos que, certamente, o cercarão durante o trajeto. Os livros devem ser editados pela editora Arte Escrita.

Solidão

O empresário assume sua solidão no projeto, mas sabe que, também, está falando de mudança de vida. Há dez anos está colado à pizzaria, na qual trabalha diariamente. “Adiei o projeto por 20 anos, mas sempre senti a necessidade interna de sair pela estrada. É um sonho antigo e tenho consciência de que vou me afastar da vida atual e, quando regressar, estarei desempregado. Mas talvez encontre outra atividade ou outro lugar para morar, mas é possível que volte para o mesmo lugar, Joaquim Egídio, de onde sairei e que acho maravilhoso.”

Ao mesmo tempo em que fala em sonho e do lado poético do Kombinações, percebe que esse tomou outros rumos, digamos, mais comerciais, pois até patrocinador entrou na jogada. Um deles, claro, é a própria Volkswagen, e talvez a Petrobras e uma empresa de telefonia. O fato é que, em princípio, deverá receber US$ 1,5 mil por mês durante um ano. Mas, independentemente desse dinheiro, tem a própria forma de manter o objetivo em pé.

Sabe também que, após a viagem, virão livros, palestras e outros produtos. E há contatos para transmissões via Rádio Globo, além de poder disponibilizar transmissões de TV em tempo real ou gravadas, do blog, que será atualizado diariamente, e envio de fotos, pois vai manter um escritório em Campinas que executará esse trabalho. Não por acaso, Cury reviu recentemente Diários de Motocicleta, de Walter Salles, sobre a mítica viagem de Che Guevara, de motocicleta, pela América Latina no final dos anos 50. Naquele caso, a aventura levou Che a uma tomada de consciência. Neste, o empresário propõe de forma criativa uma grande virada na própria vida. De Kombi.

OS NÚMEROS

140 QUILÔMETROS
Fará César Cury por dia na viagem pela América do Sul.

44 MIL QUILÔMETROS Ele vai percorrer durante os 365 dias da viagem.

Viagem seguirá no ritmo da velha companheira, Hebe

Com o roteiro milimetricamente planejado, aventureiro diz que o “grande barato” é vencer o percurso lentamente

César Cury sabe que a viagem não será só uma viagem. Depende de como é feita e em que velocidade se anda. Isso lhe remete a um outro trajeto que realizou pelo chamado Caminho do Sol, este, a pé: 240 quilômetros em 11 dias entre Santana de Parnaíba (SP) e Águas de São Pedro, réplica brasileira do Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha.

Ele faz um paralelo entre os dois trajetos e os chama de peregrinação. Eles têm ritmo próprio, não é uma velocidade que deva ser imposta. “No Caminho do Sol, quem anda rápido se cansa logo. E ninguém está apostando corrida”, ressalta. Se fosse assim, diz, viajaria num Land Rover, e isso seria muito fácil. Na Kombi, tem de se obedecer o ritmo dela, sem forçar. “O grande lance é poder fazer essa viagem num veículo lento e antigo. Basta conhecimento e bom senso. Aí é que está a graça.”

E se apressa em fazer nova ressalva: “Nada há de heróico no que estou fazendo. Pode ser romântico, por causa do abandono do meu estilo de vida, da casa, dos amigos e da família. Heróico foi o Che, que encarou o desconhecido sem qualquer planejamento. No meu caso, a razão é que parei de me levar a sério”, diz, em uma referência à viagem de moto feita por Che Guevara pela América Latina.

Também garante que aceitará hóspedes eventuais na Kombi, mas o comandante dessa história é ele. “Não há problemas em ter hóspedes, pois alguns amigos planejam me encontrar em determinados lugares ou talvez eu encontre alguém pelo caminho, mas o ritmo quem determina sou eu.” Afinal, ele não quer saber de conflitos. “Quero curtir a solidão sem conflitos. Aceito hóspedes, não sócios.”

Planejamento

E lembra que os 100 primeiros d
ias, até Ushaia, extremo Sul da Argentina, estão milimetricamente planejados. De lá, pega um barco, viaja 800 quilômetros até o sul do Chile e entra na Rodovia Panamericana, a mais longa do planeta, pois termina no Norte do Canadá. O planejamento é tal que ele sabe exatamente quantas paradas fará. Serão 120 em 365 dias. Tal apego ao plano não significa que ele não espera improvisos e até mudanças de rota. “É possível”, garante, “mas, antes de tudo, estão meus compromissos firmados com patrocinadores, mas mudanças poderão acontecer, pois não é um projeto militar”.

E quando o repórter pergunta se ele está preparado para enfrentar problemas mecânicos e de informática, ele responde que sim e remete à figura do pai, o que talvez até explique porque optou por viajar de Kombi. Seu pai era apaixonado por Kombis, chegou a ter duas simultaneamente. E foi com a memória do pai, de quem aprendeu uma grande lição, que ele encerra a conversa: “Nunca seja refém de nada nem de ninguém”. (JN/AAN)

quarta-feira, 4 de julho de 2007

A GENTE É SECRETO.


- República, boa noite.
- Boa noite, o senhor pode fazer o obséquio de me enviar umas pizzas? Fala o desconhecido com tom formal.
- Claro. Qual o seu telefone por gentileza?
- Eu prefiro não revelar meu telefone, gostaria que o senhor me desse uma estimativa da espera que eu irei pegar as pizzas na portaria do condomínio.
- Senhor, sinto muito, mas assim não pode ser. Eu preciso do número do seu telefone fixo. É por ele que o programa localiza seu endereço, caso o senhor já esteja cadastrado em nosso sistema.
- Eu já falei para o senhor que não vou informar meu telefone. Em tom autoritário.
- Então senhor, não poderei atendê-lo. Não trabalhamos aqui marcando encontros entre clientes e entregadores na portaria do Jardim Florido.
- Muito bem. Pedirei em outra pizzaria!
TUUUU! - TUUUU! - TUUUU! - Desliga bruscamente.

Instantes depois...

- República, boa noite.
- Eu não disse que morava no Florido.
- Eu sei que não, senhor.
- Você rastreou minha ligação? Adotando uma postura intimidadora.
- É claro que não, senhor. Apenas deduzi. É que esse tipo de paranóia é típico de vários moradores do seu condomínio. - Falei provocando.
- Você acha que é paranóia? Berrando. Eu só quero preservar minha privacidade e a integridade da minha família. Não sei quem é o motoqueiro que você vai mandar na minha casa!
- Senhor, pelo que já havíamos conversado, o senhor não verá motoqueiro algum do República em sua casa. Lembra-se? O senhor não me informou o seu número de telefone.
- Olha aqui rapaz: Você está sendo irônico e isso eu não admito!
- É simples, senhor. Desligue seu telefone de número misterioso que eu preciso atender outros clientes.
- Eu quero falar com o gerente.
- Não temos isso aqui, senhor. Eu até poderia chamar o dono, mas eu não acho isso uma boa idéia.
- E por que não? Agora você está me ameaçando? Histérico.
- Longe de mim ameaça-lo, senhor. É que o dono sou eu e, até agora, estou me comportando como atendente de tele-marketing. Se o senhor preferir, posso falar como dono e aí certamente partiremos para o bate-boca, de igual para igual. Agora, o senhor me dê licença que eu tenho que trabalhar. Desliguei o telefone.

10 minutos depois...

- República, boa noite.
- Como é o seu nome?
- É o senhor de novo?
- É... Eu admito ter sido meio ríspido. Eu só quero umas pizzas.
- Olhe aqui senhor, nós não somos traficantes nem seqüestradores, apenas fazemos pizzas. Eu não vou colocar os entregadores em risco de se encontrarem misteriosamente sabe-se lá com quem.
- Nisso você tem razão. Como foi mesmo que você disse que é o seu nome?
- Eu não disse. Meu nome eu não posso revelar. Mas meu codinome é Smart... Maxwell Smart... Falei cinicamente segurando o riso.
- Tudo bem, isso já foi longe demais. Mande essas pizzas, por favor. Quase implorando.
- O senhor vai me dizer o número do seu telefone?
- Com a condição de que você apague o registro dessa compra e não me pergunte a razão.
- Tudo bem, isso é possível.
- O número é 3258-SECRET...
- OK. Na casa de Dona Marisa?
- ...
- Senhor?
- Isso. É, na casa da Marisa... Falou consternado.
- Pois bem, qual é o pedido?
- São duas de Frango-com-Catupiry, uma de Calabresa e uma de Aliche.
- Certo. Bebidas e sobremesas?
- Um minuto.... Você tem Martini?
- Devo ter uma garrafa fechada. Não é comum entregar bebidas desse tipo.
- Se tiver, quero essa garrafa e também umas oito Tortinhas-Holandesas. Quanto fica?
- R$ 193,90. Devo mandar troco?
- Não é preciso, vou pagar em dinheiro. Só não esqueça de deletar o registro da compra de hoje.
- Fique tranqüilo, dou minha palavra. Dentro de uns 40 minutos seu pedido será entregue.

Quando o entregador (natural de Sousas) volta...

- "Seo Cury... U sinhô num imagina a gandaia... Era umas déis moça correndo pelada pela casa, i uns véio atráis... Uma putaria que nunca vi igüar!"