segunda-feira, 22 de setembro de 2008

DAS ÂNCORAS, FREIOS E AMARRAS.

A vida é aquilo que acontece enquanto fazemos planos para o futuro.  - John Lennon

Depois eu escrevo. Só não podia perder a data no blog como perdi na viagem.

terça-feira, 22 de abril de 2008

AVISO-PRÉVIO.

(Caixas de tomate na CEASA - Foto minha enquanto a serviço da pizzaria, é claro)


As coisas que eu mais gosto são muito simples:

Caminhar à tardezinha, pedalar de manhã, café e pão com manteiga na padaria, comprar jornal na banca, comer pastel na feira, Toddy batido no mixer, Chicabom, pudim de leite condensado, tostex de queijo branco, pipoca com molho de pimenta, cochilar na rede lendo um bom livro, cafuné (na careca mesmo), vestir roupa velha bem lavada e bem passada depois de um banho caprichado, viajar de qualquer forma, e conversar... Adoro conversar. Gosto de falar sobre o tempo, sobre comidas, livros, filosofar sobre gentes, experiências e causos... Gosto de ouvir, de forma profunda, de aprender com os outros.

Também amo abraços apertados e beijos estalados como só os verdadeiros amigos e amigas podem retribuir.

Abriria mão de todos meus outros gostos sofisticados para poder usufruir somente destes “momentos essenciais”.

A falta dessas coisas está me angustiando. Estou sendo transformando num ser estranho, anti-social e só, inacreditavelmente só. Pode parecer loucura alguém que tem contato com no mínimo cinqüenta pessoas todos os dias se queixar de solidão, mas não é: Aconteceu que ao longo dos últimos onze anos meus relacionamentos foram se resumindo aos laços comerciais, o César “gente” foi cedendo espaço para o Cury comerciante que praticamente mora numa pizzaria, que trabalha todos os dias e noites e não consegue ir para a cama antes das três da madrugada. Um cara que quando acorda antes das onze é para cumprir com compromissos impostos pelo negócio.

A criatura engoliu o criador que está surtando.

Não agüento mais falar sobre pizzas e cervejas, sorrir forçado da mesma piada contada pela enésima vez, responder que não vi tal peça de teatro, que não fui ao cinema, que não vou ao aniversário de ninguém, que não assisto televisão (não que o fizesse se fosse possível), que não conheço a Pizzaria Bráz, que nunca fui ao Cartun, que perdi o Cirque du Soleil, o show do Chico, do Ney, da Maria Rita, e que há dez anos não vejo o mar.

Claro que a pizzaria me proporcionou conhecer pessoas especiais como Fábio, Karin, Suzy, Gustavo, Israel, Abrão, Neiri, Lobão, Silvinha, Mazon e tantos outros e outras, mas eu não consigo usufruir deles... Quando vão à pizzaria fico dividido entre os amigos e o trabalho e fora da pizzaria eu simplesmente não existo. Nunca consigo estar com eles em outro lugar, aliás eu nunca estou em outro lugar.

Numa tentativa desesperada tentei delegar atribuições para conseguir tempo. Creio que acertei na teoria, mas errei feio na prática: Resultou num retrocesso operacional de uns seis meses e em prejuízos que devem alcançar o equivalente a noventa dias de lucro. – Ta vendo? Nem sei mais falar apenas do que eu sinto, já ia enveredando por assuntos comerciais!

Por tudo isso e, especialmente, porque estou morrendo de saudades de mim, a pizzaria está à venda a partir de hoje.

Se tudo der certo, brevemente a gente se encontra pra um pastel na feira.

domingo, 13 de abril de 2008

SONHO RECORRENTE.



Essa coisa de ficar ouvindo a narrativa de sonhos alheios é quase tão chata quanto ver fotografias das férias dos amigos em Orlando. Mas resolvi escrever (e ilustrar) sobre um sonho recorrente numa tentativa de destravá-lo. Quem sabe assim eu “provoco” os próximos capítulos.

Já tive sonhos recorrentes em diversos períodos, porém há cerca de um ano visito a mesma cena misteriosa ao menos uma vez por semana:

O cenário é muito simples, já foi um deserto, mas ultimamente quase sempre é uma praia. O elemento preponderante é a areia. O sol brilha muito, mas a temperatura é amena. Quando o sonho se passa na praia posso ouvir o barulho do mar, já no deserto, ouço apenas a respiração dos personagens.
Os protagonistas são apenas uma mulher (balzaquiana) e eu. Nós dois usamos calças jeans e mais nada. Normalmente estou sentado sobre meus calcanhares e ela fica postada da mesma forma atrás de mim. Ela usa uma espécie de pincel para escrever diretamente na pele das minhas costas. Quase sempre meu ângulo de visão permite que eu me veja “de fora”, mas nunca consigo ler o que ela escreve, da mesma forma também não tenho oportunidade de ver o seu rosto, sempre coberto por cabelos castanhos avermelhados, quase ruivos. Sua pele é muito branca e tem mãos bonitas.

É claro que rola um forte erotismo, mas o mais marcante é o clima de cumplicidade, de confiança recíproca, de entrega. Sei que, de alguma forma, estabelecemos um pacto de silêncio e, que naquele momento, tudo está perfeito.


Só quando acordo é que sou perturbado pelas dúvidas:

  • Quem é ou como é o rosto dessa mulher?
  • O que ela escreve (ou desenha) em minhas costas?
  • Por que o silêncio?
  • O que significa essa maluquice? Eu dou “suporte” para ela se expressar?
  • Quando verei a próxima cena?

Plim-plim!

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Anjo Caboclo Multimídia

Minha primeira (perdão) experiência com essa tecnologia - Baseada no post anterior.

terça-feira, 1 de abril de 2008

ANJO CABOCLO.


DICA: Esse texto é melhor compreendido se lido com sotaque caboclo. Experimente ler em voz alta imitando Rolando Boldrin. Esqueça os plurais e se tiver intimidade com o "estilo" leia assim o 1º parágrafo: "Apreceio o outono cum seus dia di sombra cumprida..."
PS: Hoje (02/04) fiz um filminho narrando essa miração em "caboclês", está na postagem aí de cima

Aprecio o outono com seus dias de sombras compridas..

Tempo bom para caminhar, melhor se for nos caminhos de terra batida e bem clarinha que aumenta o contraste da sombra da gente.

Finjo que a sombra é meu Anjo passeando comigo, que nem cachorro que não é ensinado. Tem hora que dispara, quase some, mas fica me esperando na curva, esse meu aliado. Depois se aquieta um tantinho, passa de um lado, passa de outro e acaba ficando lá pra trás, esperando outra reta com o sol na minha guarda pra me guiar com carinho.

Meu Anjo, quando estica, gosta de brincar. Nos barrancos fica imitando macaco, galinha, marciano. Nos capinzais, quando venta, só quer saber de dançar, já nas lagoas e nos riachos ele mergulha sem medo como que pra me convidar.

Acho que o Anjo da gente é assim também... Ta sempre por perto, brincando, pulando, chamando a gente pra reinar, mas a gente nem percebe, e ele nem deve se chatear, afinal nem mesmo pra LUZ a gente não se habitua olhar.

Os meses de outono são como o agora que a gente não costuma valorizar. É que a cabeça do povo não pára de trabalhar, lembra do calor que já passou, sente medo do frio que ainda vai chegar e esquece de subir num morro ou num telhado que fosse para o pôr-do-sol contemplar.

Sabe de uma coisa? Não vejo a hora de o dia raiar. Vou correr pra alvorada, no meio do nada e os braços e pernas vou esticar. Quero dar pro meu Anjo a sombra de uma estrela pra ele brilhar.

quinta-feira, 27 de março de 2008

DESCONTROLADO, ME ENTREGO.

(Foto de Rui de Almeida Cardoso em www.olhares.com - Portugal)
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Caiu minha panca de invencível. Fiquei de joelhos.

Março foi difícil, especialmente nessa última semana.
Enfrentei um motim na pizzaria que culminou com a saída de quatro “colaboradores”, incluindo o mentor (ou apenas o maior irresponsável) que prestava serviços de consultoria havia menos de três meses. Rita (a boxer) morreu no Domingo de Páscoa, precocemente, com pouco mais de oito anos. Na madrugada de terça-feira ladrões invadiram o restaurante e levaram quase todas as bebidas deixando um buraco na parede e outro no telhado. Tudo isso em meio a revezes financeiros decorrentes do declínio natural das vendas no primeiro trimestre, só que esse ano foi mais drástico.

Para me atordoar ainda mais, ótimas possibilidades se abriram para o projeto Kombinações, porém eu não tive tempo nem o necessário entusiasmo para dar a devida atenção. Pareceu-me muito difícil falar de futuro enquanto o presente estava naufragando.

Aí eu me entreguei, física e espiritualmente. Depois de um banho daqueles que enrugam as pontas dos dedos e encharcam a alma, larguei o corpo exausto em minha cama enorme, que pareceu mais enorme do que nunca.

Invoquei o Divino e falei em voz alta: - Ok, é demais pra mim, até sei o que fazer, mas não quero ou estou sem energia para fazê-lo. Eu abro mão de todo controle. Eu me entrego. Seja feita a Sua vontade.

Na manhã seguinte acordei na mesma posição de crucificado que deitei, semelhante à foto aí em cima. Deviam ser umas 06h30min. Na janela um tiziu parecia me gozar piando e dando cambalhotas. Fiquei contemplando o lustre sobre minha cabeça e enumerando todos os problemas que me aguardavam naquele dia. Sabia que não poderia fugir deles, mas magicamente a gravidade de cada situação foi diluída durante a noite. As fatalidades da noite anterior tornaram-se apenas contratempos que vem sendo sanados com equilíbrio e sabedoria.

É impressionante como nos enganamos a respeito de nossas próprias capacidades, ora achando que podemos carregar o mundo e logo em seguida constatando que essa é uma tarefa grande demais. Para os dois casos deveríamos manter a lucidez de que a vida não é feita de perdas e ganhos, a vida simplesmente é. Sendo assim, o melhor é se entregar a ela, com ética, com responsabilidade, mas sem a ilusão do controle.

Que essa intuição se torne permanente em mim. Quero me manter entregue, “descontrolado”.

sábado, 22 de março de 2008

ESTRANHAS SEMELHANÇAS

Tem gente que me acha fisicamente parecido com o Chico...

Eu acho um pouco disso e mais. Especialmente na busca. Vide destaque.

VIDA

Vida, minha vida
Olha o que é que eu fiz
Deixei a fatia
Mais doce da vida
Na mesa dos homens
De vida vazia
Mas, vida, ali
Quem sabe, eu fui feliz

Vida, minha vida
Olha o que é que eu fiz
Verti minha vida
Nos cantos, na pia
Na casa dos homens
De vida vadia
Mas, vida, ali
Quem sabe, eu fui feliz

Luz, quero luz,
Sei que além das cortinas
São palcos azuis
E infinitas cortinas
Com palcos atrás
Arranca, vida
Estufa, veia
E pulsa, pulsa, pulsa,
Pulsa, pulsa mais
Mais, quero mais
Nem que todos os barcos
Recolham ao cais
Que os faróis da costeira
Me lancem sinais
Arranca, vida
Estufa, vela
Me leva, leva longe
Longe, leva mais


Vida, minha vida
Olha o que é que eu fiz
Toquei na ferida
Nos nervos, nos fios
Nos olhos dos homens
De olhos sombrios
Mas, vida, ali
Eu sei que fui feliz

quinta-feira, 20 de março de 2008

O ÔNUS DO CARRASCO.

É inevitável. Terei que fazer novamente.

Perdi a conta de quantas pessoas tive que demitir. É sempre um peso enorme para mim que jamais fui exonerado. Não conheço essa rejeição e talvez, até por isso, valorize demais a dor do rejeitado.
Tento, numa relação trabalhista, manter um equilíbrio entre o profissionalismo e a cortesia, mas raramente encontro reciprocidade. Novamente estou prestes a demitir alguém que se considera meu amigo, que confundiu trabalho com amizade.
Simplesmente não posso tolerar, bem que gostaria, mas não posso. Minha pequena empresa sobrevive graças ao rígido controle sobre cada gasto, cada investimento e não posso me dar ao luxo de dar asas a mais um sonhador como eu.
Essa é a maior dor: Estou afiando a lâmina da guilhotina para degolar alguém muito parecido comigo. Quando ele me procurou e desfiou seu rosário de atributos profissionais, ajudei-o a me convencer que seria uma ótima oportunidade para nós dois. Estávamos divagando no irreal mundo das hipóteses otimistas. Supus que ele conhecesse o caminho das pedras para fazer da pizzaria o negócio que sempre sonhei. O ideal que até então era só meu, naquela hora pareceu partilhado, compreendido.
Com o passar dos meses descobri que ele só tinha aquilo para me dar, ou seja, meus próprios sonhos.
Todas as melhorias implantadas por ele eram óbvias havia anos, só faltava a ação que ocorreu em duas ou três semanas. Aí o encanto acabou.
O aumento no faturamento desde a sua chegada nunca sequer cobriu a remuneração que recebe, ou seja: Contribuiu bastante, mas seu estoque de inovações acabou ou esbarrou na capacidade de investimento da pizzaria. A conta não fecha mais. Não tem como continuar.
Além de todos os detalhes econômicos, existem os entraves pessoais: Não posso mais conviver com alguém que tomou meu lugar de sonhador, que é mais irresponsável que eu, bebe mais do que eu, que aumentou minha carga de trabalho, criou desarmonia interna e externa e ainda por cima, ganha mais do que eu.
Enquanto não tomo coragem para dizer “hasta luego, baby”, ficarei aqui contemplando o brilho da lâmina e o engenhoso mecanismo da guilhotina como se o pescoço fosse de importância secundária. Assim fica mais fácil superar o desânimo que me referi na postagem anterior.

Ao carrasco restam os respingos e o inesquecível olhar do degolado. Nenhuma glória.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Milagre.


(Foto: Paulo Madeira em www.olhares.com -Portugal)
Vazio.
Sensação de vazio.
Não é depressão, é um buraco. Às vezes me pega e quer me sugar.
Aprendi que lutar é inútil, então encaro como uma pequena morte.
Para curar repito mentalmente a Oração de São Francisco que é uma súplica no avesso, onde a gente se oferece para servir. Simultaneamente tento convencer minha alma que tudo faz sentido, que esse “nada” é o espaço adequado para a plenitude que virá em seguida, porque “é morrendo que se vive para a vida eterna”. Sempre funciona. Está funcionando agora.
Sei que em alguns dias estarei novamente mais satisfeito com tudo e com o nada também.
Deve ser o milagre da Páscoa que nos é oferecido todos os dias.

Dica: Clique aqui.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Ioga não é Yoga, mas é bom também.

Acabei de ler IOGA PARA QUEM NÃO ESTÁ NEM AÍ de Geoff Dyer (Companhia das Letras) com excelente tradução (ou versão) de Sergio Flaksman.

O cara narra situações hilárias, nos lugares mais estranhos do planeta e/ou da sua alma.

Recomendo.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

DÃO ENCHE!

Resolução tardia de ano-novo:

A partir de hoje (decidi ontem) só vou me dedicar às exigências da pizzaria após as 13H00min. Isso reduz minha rotina para apenas 12 ou 13 horas diárias, sete dias por semana.

Comecei mal: Acordei muito antes das nove, como pretendia, com uma ligação a cobrar no meu celular. Era o entregador de papel higiênico:

-Seo Celso?
-Dão, César. _Falei surpreso com a voz de pato que saiu de minha boca e com a garganta arranhado também.
-Posso falar com seo Celso?
-Dão dem nenhum Celso aqui. Beu nome é César. Bode ser?
-Ah, seo “Cérzar”, eu to aqui pra entregar seus produtos da Kimberly. O senhor pode abrir o restaurante?
-Dão bai dar. O horário de entrega dão ta escrito aí na nota?
-Tá sim, mas é que eu vim aqui perto...
-E eu to longe. Bolta à tarde.
-Posso deixar na vizinha?
-Dão! Bolta no horário que está aí na porra da nota-biscal!
-O senhor não precisa ficar nervoso.
-Dão precisava mesmo, boi bocê que me deixou assim. Bolta à tarde conforme o combinado com a bendedora.
-Tudo bem então. Obrigado.
-Dão tem de quê.

Olhei pra manhã perfeita e a minha bicicleta na varanda. Tive ímpetos de ignorar o resfriado que se alojou em mim durante a noite, mas fui interrompido em meus planos por uma crise de tosse.

-Dudo bem. Bica bra amanhã. _Grasnei sozinho.

O celular tocou a cobrar novamente:

-Alô!
-Seo "Cérzar"?
-Dão, o César saiu.
-É que...Nada não. Pode deixar.

Quando eu nunca estive lá. - Foreigners.


Hoje é só uma dica: A (linda) escritora brasileira Daniela Abade reuniu outros seis escritores de lugares diversos do planeta para que cada um escrevesse uma (óbvia) ficção sobre uma cidade que nunca visitaram. Resumindo: Os escritores trocaram entre si as cidades e as estão usando como cenário para suas histórias. O projeto é dinâmico e com atualizações semanais (no mínimo). A idéia é genial e o pouco do que pude ver promete muito.
Visite: http://interney.net/foreigners/

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Os Amigos, Os Inimigos e Os Tolerados.

Foto de F. Monteiro em www. olhares.com


Meu filho me goza dizendo que eu sou um cara de “amizade fácil” e é verdade. Depois do muito prazer, meu nome é César, vou falando da minha vida, felicidades e dificuldades sem muito cuidado. Acho natural, não tenho (muito) que esconder ou me envergonhar.
Esse comportamento é um campo fértil para quem confunde bonzinho com bobinho e, ao longo do tempo, venho colecionando “tolerados”.

Há alguns anos, quando eu tinha uns trinta e poucos, época em que li inúmeros e idênticos livros de auto-ajuda, fui levado a concluir que eu era portador de uma baixíssima capacidade de perdão e que essa característica era a grande responsável pela sensação de “fragmentação do meu ser”.
Passei uma década ou mais me “auto-fodendo” por conta da minha suposta inabilidade de perdoar incondicionalmente. As pessoas me ferravam e, não bastante isso, eu me sentia incompleto, pecador e indigno por não conseguir “perdoa-las de coração”.
Hoje, que superei a segunda adolescência (dos 30 aos 40), concluí temporariamente que sou ruim em perdoar os traidores, os fracos, os canalhas, os mentirosos, os hipócritas e assemelhados exatamente porque não aceito esses comportamentos em mim.
Posso culpar ou louvar a inflexibilidade da educação que recebi de meus pais, o código de honra que absorvi de meus irmãos mais velhos que “pastam”, como eu, nas mesmas “campinas da verdade acima de tudo”, mas nenhuma das minhas dores me fará ser complacente comigo mesmo, muito menos com os outros.
Suporto e até convivo com as grandes mancadas e respectivos argumentos e desculpas, as fraquezas confessas ou não, porém de forma intelectual, técnica, mas lá dentro, em meu coração, quem trai, mente ou fraqueja nos negócios, na amizade ou no amor estará destinado ao meu “limbo pessoal”: Daqui pra frente tolero-te, e só.
Li em algum lugar que tolerar é a pior forma de odiar, pois não carrega sequer uma carga de emoção, é apenas desprezo dissimulado em cortesia e uso cuidadoso.

Cruel?

Não é bem assim.
Antes de tudo ofereci minha “amizade fácil e sincera”, como diz meu filho. Nunca prometi ser um babaca de estimação.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

GANHANDO TEMPO.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Inveja.

Chega de inveja!

Já que ninguém faz um depoimento pra mim no Orkut, fá-lo-ei eu mesmo...





Nota do editor: Esse depoimento é (ou não) uma obra de ficção. As pessoas reais ou imaginárias citadas nesse documento são uma só. Homenageado e homenageante citados aqui como CÉSAR, EU, MIM OU NÓS, autorizaram essa publicação. Qualquer semelhança com fatos e pessoas reais deve-se a uma estranha coincidência, previsível homonimidade ou péssima literatura.

César. O que dizer do César? – (Depoimento no Orkut que se preza começa assim).
Se não fosse por mim, hoje eu não estaria aqui fazendo esse depoimento. Eu sempre estive ao meu lado. Mesmo contrariado, jamais me abandonei. Nos momentos mais significativos de toda minha vida eu estava presente: Sofri comigo, alegrei-me comigo, sonhei comigo e desiludi-me comigo.
São tantos anos, possivelmente encarnações, que caminhamos juntos, mim e eu, que não consigo imaginar um dia a gente se separar. Creia amigo, no dia que formos dessa para melhor, batermos as botas, abotoarmos o paletó de madeira, irei contigo sem discutir ou talvez, só um pouquinho.
Sei que meu carinho e compreensão por mim são incondicionais, às vezes penso que mim e eu somos até mais do que uma única pessoa. Eu perdôo quase tudo que eu me faço e eu, por minha vez, me compreendo e me consolo até nas minhas fraquezas mais sórdidas.
Mim e eu não temos segredos entre nós, nossa vida é um livro aberto e mal escrito, mas nós adoramos reler-me.
Não posso esquecer dos amigos que eu me apresentei. Quase todos gostam tanto de mim quanto de nós. Pensam que somos inseparáveis. É porque não conhecem nossas rusgas secretas. Tem dias que tenho vontade de me estrangular, de ir embora e nunca mais olhar na minha cara, mas nossa unidade é maior e eu perdôo a mim como se o erro fosse meu.
Naqueles dias em que estou pra baixo, depressivo, eu venho em meu socorro e não adianta nada. Quando, porém, eu estou alegre, expansivo, divertido, acabo pondo mais lenha na fogueira e, muitas vezes, passo do limite, o que causa em mim, que sou mais tímido do que eu, certo constrangimento. Que eu me perdoe, não faço para envergonhar-me.
Enfim, querido César, escrevo aqui esse humilde depoimento para dizer muito pouco sobre a enorme importância que eu tenho pra mim. Saiba que meu apreço por mim é tão grande que nem que mil anos se passem, nem que os deuses desçam do Olimpo, nem que o efeito estufa nos torre, jamais me deixarei sozinho.
Conte sempre comigo.
Me amo.
Meu amigo, Eu.

Gotas de Otimismo.

Tem dias como ontem, antes de ontem e, possivelmente hoje também, que a gente se sente como que no meio de um quebra-quebra na feira, tal a quantidade de pepinos, nabos e abacaxis que caem sem trégua sobre nossas cabeças. Sempre que me sobra algum equilíbrio, supero melhor esses períodos utilizando a meditação dinâmica, que é aquela que a gente faz enquanto, por exemplo, está apanhando. O fundo musical mais adequado que encontrei até hoje para esse “exercício” é a excelente interpretação de Rita Lee para uma composição (pasme) de Moacyr Franco que me leva de volta à real dimensão de minhas derrotas, assim como de minhas vitórias.

TUDO VIRA BOSTA.
Moacyr Franco.

O ovo frito, o caviar e o cozido
A buchada e o cabrito
O cinzento e o colorido
A ditadura e o oprimido
Prometido e não cumprido
E o programa do partido
Tudo vira bosta

O vinho branco, a cachaça, o chopp escuro
O herói e o dedo-duro
O grafite lá no muro
Seu cartão e seu seguro
Quem cobrou ou pagou juro
Meu passado e meu futuro
Tudo vira bosta

Um dia depois não me vire as costas
Salvemos nós dois, tudo vira bosta

Filé “minhão”, “champinhão”
Don “perrinhão”, salsichão, arroz, feijão
Muçulmano e cristão
A mercedez e o fuscão
A patroa do patrão
Meu salário e meu tesão
Tudo vira bosta

O pão-de-ló, brevidade da vovó
O foundue, o mocotó
Pavarotti e xororó
Minha eguinha pocotó
Ninguém vai escapar do pó
Sua boca e seu loló
Tudo vira bosta

Um dia depois não me vire as costas
Salvemos nós dois, tudo vira bosta

A rabada, o tutu, o frango assado
O jiló e o quiabo
A prostituta e o deputado
A virtude e o pecado
Esse governo e o passado
Vai você que eu tô cansado
Tudo vira bosta

Um dia depois não me vire as costas
Salvemos nós dois, tudo vira bosta

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Silenciosamente.

Foto: Elsa Água em www.olhares.com

Bendito seja o não dito,
Só gestos e olhares.
Toques, descobertas

Inúteis palavras, calam-se.
Nas línguas, sabores
De peles, cabelos.

Dizer... Nada.
Tato, quietude, sombra e luz
Isso basta, porque

O corpo, a alma e a mente,
silenciosamente,
não mentem,
quando sentem.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

NEM FREUD (nem sai de cima).


CAPÍTULO I – O LOUCO.
Quinta-feira, 07/02/2008 – 02H45min.

Li preocupado o e-mail de uma amiga doce e fatalista de manifestações bissextas.

"César querido.

Fiquei feliz em descobrir que você acabou com o jejum de textos novos no seu blog, mas muito preocupada com o conteúdo das últimas postagens.
Você passou o Natal e o Reveillon sozinho, depois fez pouco dos desígnios de Deus, recomendou que os narcisistas se jogassem numa fogueira, usou e abusou do foda-se isso, foda-se aquilo, irritou-se com as chuvas e com o Carnaval e ainda raspou totalmente os cabelos. [...] quero que saiba que compreendo suas angústias até porque já passei, como você bem se lembra, por períodos difíceis e, graças a ajuda profissional, venci meus demônios em poucos meses.[...]
Blá, etc. & tal, conte comigo.
Beijinhos na careca.
C."


CAPÍTULO II – O BONECO.
Quinta feira, 07/02/2008 – 21H50min.

Quando o Lula se preparava para disputar a reeleição encomendei do Edson, um artista catarinense, uma espécie de caricatura tridimensional do nosso ilustre re-presidenciável para decorar o República. Nada mais apropriado para uma pizzaria que tem a política como tema.
Desde que chegou, esse boneco foi surrado e quase esquartejado pelos clientes e ficou tão maltratado e maltrapilho que o escondemos no mezanino. Semana passada, decidi restaura-lo.
Um pouco de paciência e cola-quente farão uma verdadeira plástica em nosso mascote, pensei.
Levei o cabeçudo para casa.


CAPÍTULO III – O ANALISTA.
Domingo, 10/02/2008 – 02H25min.

Noite de Sábado perfeita na pizzaria. Casa cheia, só elogios.

Cheguei ao ninho trazendo pouco mais de meia garrafa de um cabernet argentino que abri lá pelas onze da noite e não consegui dar conta. Ao acender a luz quase enfartei com o "Lula" sentado ao computador. Tentei inutilmente me lembrar como é que ele foi parar lá. Até agora não me recordo quando e porque o movi do sofá.
Tomei um banho caprichado e fui conferir os e-mails, blog, Orkut, toda essa parafernália contemporânea que nos mantém em contato com o lado mais humano dos nossos amigos.
Ajeitei o boneco novamente no sofá e quando me servia de um pouco de vinho ouvi claramente uma voz masculina (não rouca), pausada e profunda me pedir:

- Para mim também, por favor...

- Orra meu, que susto! Quem, ou o que, é você?

-Meu nome é Sigmund. Sou psicanalista, na verdade, o pai de todos eles, e estou aqui para ajuda-lo.
-Graças à Deus! Achei que minha amiga estava certa. Confesso que por um instante pensei que era o presidente falando comigo.
-Diga aí Sig, o que o traz aqui assim dentro dessa, digamos, encarnação tão pitoresca?
- Foi o seu foco na correspondência da sua amiga que permitiu que eu incorporasse “nisso”.
- Você não está muito confortável nesse corpo, né?
- É que meu perfil é mais tucano e convém a um analista ficar em cima do muro.
- Compreendo.
- Essa fala é minha!
- Tudo bem, desculpe. Por onde começamos?
- Vou traçar seu perfil a partir de associações. Eu digo uma palavra e você diz a primeira coisa que lhe vier à cabeça. Ok?
- Certo. Conheço o método.
- Vinho.
- Sangue!
-
Não! Ainda não começou! Estou te pedindo que me sirva o vinho!
- Perdão! Aqui está.
- Vamos começar então: Razão.

- Esquece Sig. Isso não vai dar certo. Eu me sinto fazendo um teste de personalidade da revista Contigo. To tão constrangido que vou falsear as respostas. Que tal você me perguntar como tenho andado?
- Ok. Como está sua vida?
- SO-BRE-CAR-RE-GA-DA!
- Percebi certo peso em sua voz... Fale mais a respeito.
- O
peso foi intencional, sabichão. Por isso que eu “disse” sobrecarregada em maiúsculas e sílaba por sílaba. Não suporto mais solicitações. Elas vêm de todos os lados: funcionários, clientes, fornecedores... Minha vida profissional se tornou uma samsara estúpida de milhões de coisas minhas e alheias por fazer, resolver e cuidar e nada por finalizar. O problema não é matar um leão por dia, mas matar o mesmo leão todos os dias... Ô bicho chato!
-
Mude de vida, de ocupação.
- Essa é a intenção. Tenho o projeto da viagem, preciso de tempo para cuidar dele, mas o tal leão não deixa.
-
Foi esse leão que deixou você amargo nas últimas postagens?
- Não estava amargo. Só não estava e nem ando muito disposto a adular ninguém. Sorrir forçado dá rugas e escrever só amenidades é como usar botox na alma. Não sou tão compreensivo assim. Compreensão é o seu ofício, para mim é apenas uma virtude.
- Aquela estória de queimar os vaidosos... Qual seu problema com espelhos?

- Não tenho problema algum com o espelho. Talvez só um pouquinho. O que me perturba é essa ditadura do modelo de beleza, de moda. Estou mesmo é com o saco cheio dessa pasteurização estética. Repare nas mulheres com a mesma tinta no cabelo, adeptas da chapinha, dos óculos para-brisa-de-caminhão e por aí vai. O mais grave é que não ficam apenas na aparência, estão pasteurizando as conversas, as gírias, os trejeitos, o conteúdo. Isso, aposto, é resultado de vaidades mal resolvidas.
- Sua cabeça raspada é um protesto?

- Muito “pelo contrário.” Perdão pelo trocadilho.
È um exercício de liberdade. Comecei a trabalhar com o público aos 14 anos e não tive a oportunidade de deixar meus cabelos (quando os tinha em abundância) crescerem como fez minha geração. Amadureci almofadinha por conta da necessária imagem comercial. Hoje não preciso mais disso e posso arriscar layouts diferentes. Eu até gostaria de ter um crânio negróide, perfeitamente esférico, mas essa cabeça de turco também não é tão feia quanto eu imaginava antes de raspá-la. Uma amiga me chamou de corajoso, outra disse que fiquei sexy. Isso deve ser um empate.
- Será que a segunda não confundiu sexy com fálico? HÁHÁHÁHÁHÁ! Desculpe! Perco o cliente, mas não perco a piada!
Já que tocamos no assunto...
-Demorou hein Sig. Mas isso vai ficar para a próxima sessão. Mesmo porque, para falar de sexo, vou precisar de regressão.